Dispositivo pode ajudar no rápido diagnóstico de infarto

Principal causa de mortes no mundo, as doenças cardiovasculares, principalmente infartos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais (AVC), provocam 17 milhões de óbitos anualmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, por volta de 400 mil pessoas morrem por ano em decorrência dessas enfermidades. O rápido diagnóstico de pacientes que apresentam sintomas de infarto e AVC é um fator crucial para salvar vidas ou evitar sequelas.

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESPPesquisador insere solução no biossensor, tendo ao fundo protótipo do aparelho para medição de troponinaLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Essa foi a motivação dos pesquisadores da healthtech Cor.Sync, nascida em Curitiba e hoje sediada em São Paulo, para desenvolver uma ferramenta tecnológica capaz de medir em menos de 10 minutos o nível de troponina cardíaca, o principal biomarcador de infarto – healthtech é uma empresa de base tecnológica da área da saúde. Com os recursos hoje disponíveis, os médicos podem levar até quatro horas para ter o resultado desse exame. O desenvolvimento da solução, em fase final de validação clínica, teve apoio da FAPESP por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe).

“Nosso método utiliza biossensores de alta especificidade para medir no sangue do paciente a concentração de troponina cardíaca”, explica o engenheiro biomédico Raul de Macedo, fundador e CEO da Cor.Sync. Além do método, a empresa também criou um dispositivo portátil point of care, ou seja, para ser usado no local do atendimento, que faz a rápida análise da amostra sanguínea.

“Os resultados quantitativos de troponina são apresentados em oito minutos na tela do aparelho e no prontuário eletrônico do paciente, ajudando o médico a identificar se houve mesmo infarto”, conta Macedo. Tanto a metodologia, comprovada em estudos de bancada, como o equipamento já tiveram pedidos de patente depositados no Brasil e no mundo.

A vantagem do teste rápido para troponina no ponto de atendimento é que a análise do sangue do paciente é feita no serviço de emergência do hospital, sem precisar ser enviado ao laboratório de análises clínicas da instituição. “Ganhamos minutos preciosos que podem fazer diferença nos cuidados com o paciente”, diz o cardiologista Attílio Galhardo, sócio da Cor.Sync e um dos integrantes da equipe que desenvolveu a solução.

O diagnóstico de infarto, diz ele, é feito a partir do histórico clínico do paciente e da análise de um eletrocardiograma (ECG), exame que avalia alterações miocárdicas resultantes de isquemia – a redução do fluxo sanguíneo no coração – ou necrose, assim como o ritmo dos batimentos cardíacos. O ECG, entretanto, não é sensível o suficiente para detectar graus pequenos ou de curta duração de lesão miocárdica. Quando disponível, o exame de sangue laboratorial para medição de troponina é considerado padrão ouro para diagnóstico de infarto.

“Quando o ECG não é conclusivo, o médico solicita o teste sanguíneo. Ocorre que, na maioria dos hospitais do país e em boa parte dos hospitais do mundo, o resultado desse exame leva entre duas e quatro horas para ficar pronto. Mesmo em unidades de referência o retorno raramente se dá em menos de uma hora. É tempo demais”, ressalta Galhardo. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), cerca de 50% das vítimas de infarto do miocárdio não apresentam alterações significativas no eletrocardiograma. “Para esses casos, a dosagem da troponina é essencial para o correto diagnóstico”, argumenta Galhardo.

Os testes laboratoriais para detecção da troponina cardíaca têm alta precisão, com coeficiente de variação de 7% do valor de referência – ou seja, se o valor real de troponina for 10 nanogramas por litro (ng/l), o sistema apresentará um valor entre 9,3 e 10,7 ng/l. Essa margem de erro é aceita pela comunidade médica. Por outro lado, são demorados e exigem manipulação da amostra por pessoal especializado. “O exame costuma levar 40 minutos na máquina, além do tempo de preparação da amostra e de deslocamento até o laboratório”, diz Macedo.

O empreendedor destaca que já há no mercado testes point of care comerciais de troponina, semelhantes ao projetado pela Cor.Sync. “Eles realizam a medição em poucos minutos, mas não têm a precisão desejada para diagnóstico. Por isso, são usados para triagem, exigindo um teste laboratorial para confirmação”, informa Macedo. “Nós conseguimos juntar a precisão diagnóstica dos exames laboratoriais padrão ouro com a rapidez e a praticidade do diagnóstico point of care.”

Para o cardiologista Pedro Ivo de Marqui Moraes, médico-assistente da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de cardiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as metodologias point of care para análise de troponina são um grande avanço. “Para quem trabalha no setor de emergência ou em UTI é muito mais conveniente dispor de um dispositivo que processe o teste e entregue o resultado in loco em poucos minutos”, opina. “A metodologia laboratorial de quantificação da troponina é antiga e tem sido aprimorada nos últimos anos. Estamos numa fase de transição para os exames point of care.”

Ressonância plasmônica
O método criado pela Cor.Sync é baseado em um fenômeno físico conhecido como ressonância plasmônica de superfície. Ele se fundamenta na interação entre um feixe de laser e um biossensor composto por um nanofilme metálico, onde a amostra de sangue é depositada (ver infográfico). “Os testes comerciais point of care para troponina empregam outros métodos. A ressonância plasmônica, até onde sabemos, não é usada para diagnóstico, mas para monitorar a dinâmica de interação entre proteínas em outras situações. O que fizemos foi adaptar esse método para uma plataforma de diagnóstico”, esclarece Macedo.

A ideia de criar um dispositivo que tornasse mais rápido o diagnóstico de infarto nasceu em 2017, ano em que Macedo iniciou o mestrado em engenharia biomédica na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
“Pouco tempo antes, senti uma dor no peito e achei que estava sofrendo um infarto. Fui ao pronto-socorro e, felizmente, era só estresse. Mas me chamou a atenção a demora para ter o resultado do diagnóstico”, recorda-se.

Em 2019, o engenheiro decidiu criar a startup em Curitiba, cidade onde morava, a fim de desenvolver um aparelho comercial para rápida detecção de troponina. No ano seguinte, a Cor.Sync foi transferida para São Paulo e passou a ser incubada no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec) da Universidade de São Paulo (USP). A atividade de pesquisa e desenvolvimento concentrou-se na capital paulista. “Percebi que a nossa solução era complexa demais e sem a ajuda de pesquisadores de referência seria difícil criar um produto comercial escalável [fabricado em grande quantidade]. Por isso, buscamos nos aproximar da USP e firmamos um acordo de cooperação com o SisNano USP, a rede de laboratórios de nanotecnologia da universidade”, conta.

“Fomos procurados pela Cor.Sync e estamos auxiliando no desenvolvimento do biossensor”, conta o químico Koiti Araki, coordenador do SisNano USP. “Temos interesse no projeto pela relevância do diagnóstico de doenças e porque o método é baseado em uma técnica nanotecnológica, a ressonância plasmônica de superfície. A vantagem dela é que permite a detecção de quantidades muito pequenas de moléculas, no caso a troponina, presentes na amostra de sangue.”

O método diagnóstico da healthtech já foi validado em bancada de laboratório. Durante o estudo, a metodologia apresentou um coeficiente de variação de 7%, semelhante ao dos exames-padrão de laboratório. A startup também concluiu o desenvolvimento do primeiro protótipo do aparelho point of care – uma segunda versão deve ficar pronta em outubro.

Alexandre Affonso

A fase final do desenvolvimento – um estudo com pacientes para validação clínica da metodologia – está programada para ocorrer ainda este ano. A startup está concluindo a negociação com um hospital de São Paulo para a realização de uma pesquisa com 600 voluntários – pessoas que chegam na emergência do hospital com suspeita de infarto. “Esperamos ter resultados até o fim do ano ou início do próximo para poder entrar com um pedido de autorização de uso do dispositivo na Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Tudo correndo bem, o produto poderá chegar ao mercado em 2023”, declara Galhardo.

Para desenvolver a solução, a Cor.Sync recebeu R$ 2,85 milhões de investidores privados e em recursos não reembolsáveis. Além do programa Pipe-FAPESP, a empresa teve apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), do Conecta Startup Brasil, iniciativa do governo federal de estímulo ao empreendedorismo, e do programa IA2, promovido pelo MCTI com apoio da Softex, organização de fomento à transformação digital.

Projeto
Desenvolvimento e validação de um dispositivo point of care para medição do nível de troponina cardíaca no sangue (no 20/05786-6); Modalidade Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisador responsável Raul Queixada (Cor.Sync); Investimento R$ 140.501,60.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Dificuldades no controle da pandemia aumentaram transmissão de bactéria resistente em ambiente hospitalar

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O elevado número de casos graves nos picos da pandemia de covid-19 provocou um colapso no sistema de saúde. Entre as principais dificuldades enfrentadas estavam a superlotação das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), alta carga de trabalho para os profissionais de saúde, falta de profissionais experientes no atendimento em UTI, aumento do uso de antimicrobianos e ausência de recursos (medicamentos e insumos). Esse cenário, de acordo com estudo feito por pesquisadores da USP, contribuiu para o aumento do número de pacientes com doença causada por Klebsiella pneumoniae, bactéria extensivamente resistente ao uso dos antibióticos. Essa conclusão foi obtida a partir da análise de amostras de sangue, secreção traqueal, urina e outros fluidos coletadas de 26 pacientes positivos para a bactéria e que estavam internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP entre setembro e novembro de 2020, que corresponde ao primeiro pico de casos da covid-19 no Brasil.

Os casos foram confirmados nas UTIs de covid-19, na UTI de pacientes sem covid-19 ou nas enfermarias clínicas e cirúrgicas. “Observamos um aumento expressivo dos casos de Klebsiella pneumoniae extensivamente resistente nas UTIs que foram dedicadas ao atendimento da covid-19. Ao analisar amostras de outros locais, como enfermarias, por exemplo, os casos diminuem”, conta o médico infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HCFMRP e um dos coordenadores do estudo, Gilberto Gambero Gaspar.

A pesquisa analisou três vertentes importantes, segundo Gaspar, a questão epidemiológica a partir dos casos clínicos e da cadeia de transmissão, estudos microbiológicos e de suscetibilidade a drogas, e análises moleculares através do sequenciamento completo do genoma das bactérias; “tudo para tentar entender um pouco mais da transmissão”, explica o infectologista.

Transmissão cruzada e mortalidade

Os pesquisadores apontam que, possivelmente, são resultado da transmissão cruzada, contaminação entre pessoas, de superfície e entre objetos e pessoas, durante a pandemia. E, entre as possíveis causas, a alta sobrecarga dos pacientes com ventilação mecânica na UTI, necessidade de a equipe de saúde realizar manobras para evitar a baixa oxigenação no sangue (pronação, que significa deitar paciente de barriga para baixo), alta carga de trabalho dos profissionais da saúde e pacientes em estado extremamente crítico.

Outro destaque do estudo apontado pelos pesquisadores é o índice de mortalidade de 30,7% entre os infectados analisados no estudo, e o fato de 80% dos pacientes que morreram terem ao menos uma comorbidade. “Isso chamou muito a atenção, pois mostra a dificuldade de tratamento, ou seja, temos pouco arsenal terapêutico com eficácia considerada boa para esses casos, o que leva o paciente a um tratamento empírico, que é o uso inicial de antimicrobianos baseado em bactérias mais prováveis antes do diagnóstico microbiano ser finalizado”, afirma o médico.

Ainda de acordo com Gilberto, os resultados reforçam a importância das práticas de higienização das mãos, dos programas de limpeza do ambiente e do uso racional de antimicrobianos. “No cenário da pandemia, observamos o uso abusivo de antimicrobianos, muitas vezes pela dificuldade de diferenciação diagnóstica entre a covid-19 grave e um quadro de pneumonia bacteriana associada”, finaliza.

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Fonte: Jornal da USP

Estudo encontra associação entre tipo sanguíneo e risco de AVC precoce

O tipo sanguíneo A predominou em comparação com pessoas que tiveram AVC com 60 anos ou mais ou nunca tiveram – Foto: Freepik/Fotomontagem Jornal da USP

Em um estudo publicado no periódico Neurology, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, encontraram associação entre ser do tipo sanguíneo A ao risco aumentado de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) antes dos 60 anos.

A partir de um compilado de 48 estudos feitos na América do Norte, Europa, Japão, Paquistão e Austrália sobre genética e AVC isquêmico — que acontece pelo entupimento de veias e artérias responsáveis pela irrigação de diferentes partes do cérebro —, cientistas analisaram os dados de 17 mil pessoas que sofreram derrame ao longo da vida e quase 600 mil participaram do grupo controle e nunca desenvolveram a doença.

Durante a análise, os pesquisadores notaram que o tipo sanguíneo A predominou em comparação com pessoas que tiveram AVC com 60 anos ou mais ou nunca tiveram: para essas pessoas, o risco de ter um derrame precoce foi 16% maior. Já para aqueles com o tipo O, o risco foi 12% menor.

Associação de genoma

“O estudo é de associação de genoma. Ele consegue ver essa relação, mas não testa o mecanismo dela. Então, ele traz algumas hipóteses junto com outros estudos. Uma das ideias é que o sistema ABO é dado por glicoproteínas que, além de estarem nos glóbulos vermelhos, também têm relação com proteínas em plaquetas na parede dos vasos. Isso muda os fatores de coagulação e foi mostrado em outros estudos anteriores uma mudança de fator de coagulação. Quem é do tipo A tem uma tendência maior a fazer coágulos e também tem mais trombose venosa”, explica Guilherme Diogo, neurologista no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Atuando nas áreas de neuroimunologia e de emergências neurológicas, o médico esclarece que, com base nas evidências científicas até o momento, ainda não é possível afirmar que pessoas com o grupo sanguíneo A estão mais suscetíveis ao AVC precoce, mas essa descoberta internacional pode abrir portas para que a comunidade científica entenda melhor quais fatores podem estar relacionados às conclusões da pesquisa.

“A ideia desses estudos de risco por genética é combinar vários fatores. Por exemplo, a gente pode juntar várias dessas mutações genéticas a fatores ambientais também. Será que eu vou conseguir desenvolver mais algum exame, mais algum tratamento precoce a partir daquela mutação? Sozinho, esse estudo não vai conseguir fazer isso, mas pode ser um passo para virar algo complexo”, finaliza o especialista.

Vantagens do teste de HPV no rastreio primário do câncer cervical superam os custos

Julia Moióli | Agência FAPESP – Entre os tumores mais diagnosticados no Brasil, os de colo uterino ocupam a quarta posição no ranking. São também a quarta causa de morte por câncer, embora possam ser prevenidos por meio de vacinação e de um teste capaz de detectar o HPV – particularmente os tipos 16 e 18 desse vírus, considerados de alto risco oncogênico.

A forma de se obter a amostra para o teste de HPV é semelhante à do exame de Papanicolaou: células do colo do útero são coletadas, preferencialmente com uma escova específica para esse fim. No laboratório, por meio de uma tecnologia conhecida como PCR (reação em cadeia da polimerase), observa-se a presença ou não do DNA de diferentes tipos do vírus no colo do útero.

No entanto, o rastreamento no país ainda é feito primariamente por meio do exame citológico (Papanicolaou), que apresenta baixa sensibilidade quando comparado ao teste molecular específico para identificação do HPV. O maior impedimento para sua adoção seriam os valores envolvidos na alteração do sistema atualmente adotado. Porém, de acordo com uma pesquisa feita no Hospital de Amor (antigamente chamado Hospital do Câncer de Barretos), o método já é realidade em países da América Latina e poderia, sim, ser utilizado de maneira custo-efetiva no Brasil, o país mais rico da região. A conclusão foi publicada na revista Cancers.

Com apoio da FAPESP (projetos 20/00445-6 e 18/22017-6), os pesquisadores fizeram uma revisão dos estudos já publicados sobre o tema. Também levantaram informações oficiais sobre triagem primária com teste de HPV em oito países. No caso do México, o exame é feito de forma gratuita em todos os territórios. Já Argentina, Chile e Peru o adotaram apenas em determinadas regiões. Em El Salvador e Guatemala, a triagem com testes moleculares específicos é recomendada nacionalmente.

No Brasil foram realizados dois estudos-pilotos (um na capital paulista e outro em Indaiatuba, interior do Estado), cujos resultados corroboram a premissa de que a implementação dos testes de HPV na triagem primária feita pelo sistema público de saúde é não apenas viável, mas recomendável por seu potencial na redução da morbidade e mortalidade por câncer de colo de útero.

“A ideia de nossa pesquisa é pautar uma política pública para pensarmos se a implementação seria interessante em nível nacional, considerando custo e efetividade”, explica Luani Rezende Godoy, bacharel em biotecnologia e doutoranda do Grupo de HPV do Centro de Pesquisa em Oncologia Molecular (CPOM) do Hospital de Amor.

“Os resultados nos surpreenderam positivamente porque sabíamos que o exame era comumente realizado em países europeus, mas desconhecíamos sua viabilidade efetiva em outro contexto.”

Segundo os autores, observar a população latino-americana foi importante por conta de sua heterogeneidade e dos altos índices de carcinomas cervicais provocados por diferentes tipos de HPVs, dependendo das regiões e dos cuidados a que as mulheres têm acesso.

“Identificar essas diferenças de forma abrangente e robusta pode produzir dados que nos orientem a introduzir estratégias de prevenção mais eficazes”, afirma Adhemar Longatto Filho, professor convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Minho, em Portugal, pesquisador científico visitante do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coautor da revisão.

Teste na idade correta

No Brasil, o Papanicolaou é realizado a partir dos 25 anos de idade, fase de atividade sexual presumivelmente mais frequente e, portanto, de maior contato com o vírus HPV. Na maioria das vezes, o microrganismo não permanece no corpo por tempo suficiente para causar as alterações que levam ao surgimento do câncer de colo de útero. Desse modo, mulheres jovens abaixo dos 25 anos, muitas vezes, acabam submetidas a um exame desnecessário para sua idade.

A realização do teste específico de HPV, por sua vez, é indicada na Europa e nos Estados Unidos para mulheres acima de 30 anos, quando já é possível reconhecer infecções persistentes.

Outras vantagens do teste de HPV são o maior intervalo entre exames (por conta do alto valor preditivo negativo recomenda-se a cada cinco anos, em vez dos três indicados oficialmente para o exame citológico). Além disso, a coleta do teste molecular pode ser realizada pela própria mulher (autocoleta), sem afetar a sensibilidade do método. Na avaliação dos pesquisadores, uma campanha de educação nesse sentido poderá contribuir para otimizar os melhores índices de desempenho do teste molecular e das estratégias de prevenção.

Uma vez coletada, a amostra pode ser enviada para análise. “Isso facilitaria o acesso do exame às populações de localidades rurais e remotas, ajudando a aumentar a cobertura de rastreamento”, acredita Luani. Apenas em caso de resultado positivo para HPV seriam recomendados exames complementares como colposcopia e, se necessário, biópsia.

Um estudo Temático do qual Luani participa envolve o desenvolvimento de um dispositivo para analisar também o DNA no teste de HPV, indicando a presença de proteínas indicativas de lesão, agregando ainda mais especificidade e potencialmente evitando colposcopias desnecessárias.

Desafios e possibilidades

Além da cultura do sistema de saúde brasileiro, com médicos e pacientes habituados à realização do exame preventivo de Papanicolaou, o maior desafio visto para a implementação do teste de HPV seria financeiro. No entanto, a redução de custo gerada pelo maior intervalo de testagem e o menor número de colposcopias representariam uma compensação. Isso sem mencionar que a maior demanda poderia, por si só, reduzir os custos dos kits produzidos para esse fim.

Além disso, a ampla rede presente na saúde pública em determinados países na América Latina, como o Brasil, com estrutura e logística já bastante bem definidas, pressupõe boas perspectivas de implementação. A sugestão dos autores é que as pacientes sejam recrutadas de acordo com a idade, por meio de um banco de dados digital e de campanhas ativas e constantes.

“Esperamos adicionar mais uma de muitas contribuições relevantes à matéria, aumentando a capacidade de identificação de detalhes da biologia dos HPVs de risco oncogênico, para direcionarmos futuras intervenções preventivas e, muito provavelmente, investigações que englobem não apenas a introdução de testes de rastreio cada vez mais precisos, mas também direcionem a pesquisa de novas gerações de vacinas”, afirma Longatto.

O artigo Implementation of HPV Tests in Latin America: What We Learned; What Should We Have Learned, and What Can We Do Better? pode ser lido em: www.mdpi.com/2072-6694/14/11/2612/htm.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Resultados neurológicos a longo prazo do COVID-19

Publicado artigo na Nature Medicine intitulado “Resultados neurológicos a longo prazo do COVID-19”.

Foram utilizados os bancos de dados nacionais de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA

Resumo: As manifestações neurológicas da COVID-19 aguda são bem caracterizadas, mas uma avaliação abrangente das sequelas neurológicas pós-aguda em 1 ano não foi realizada. Aqui usamos os bancos de dados nacionais de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA para construir uma coorte de 154.068 indivíduos com COVID-19, 5.638.795 controles contemporâneos e 5.859.621 controles históricos; usamos ponderação de probabilidade inversa para equilibrar as coortes e estimar riscos e cargas de distúrbios neurológicos incidentes aos 12 meses após a infecção aguda por SARS-CoV-2. Nossos resultados mostram que na fase pós-aguda do COVID-19, houve aumento do risco de uma série de sequelas neurológicas incidentes, incluindo acidente vascular cerebral isquêmico e hemorrágico, distúrbios de cognição e memória, distúrbios do sistema nervoso periférico, distúrbios episódicos (por exemplo, enxaqueca e convulsões) , distúrbios extrapiramidais e do movimento, distúrbios de saúde mental, distúrbios musculoesqueléticos, distúrbios sensoriais, síndrome de Guillain-Barré e encefalite ou encefalopatia. Estimamos que a taxa de risco de qualquer sequela neurológica foi de 1,42 (intervalos de confiança de 95% 1,38, 1,47) e carga 70,69 (intervalos de confiança de 95% 63,54, 78,01) por 1.000 pessoas em 12 meses. Os riscos e encargos foram elevados mesmo em pessoas que não necessitaram de hospitalização durante a COVID-19 aguda. As limitações incluem uma coorte composta principalmente por homens brancos. Em conjunto, nossos resultados fornecem evidências de aumento do risco de distúrbios neurológicos de longo prazo em pessoas que tiveram COVID-19. Estimamos que a taxa de risco de qualquer sequela neurológica foi de 1,42 (intervalos de confiança de 95% 1,38, 1,47) e carga 70,69 (intervalos de confiança de 95% 63,54, 78,01) por 1.000 pessoas em 12 meses. Os riscos e encargos foram elevados mesmo em pessoas que não necessitaram de hospitalização durante a COVID-19 aguda. As limitações incluem uma coorte composta principalmente por homens brancos. Em conjunto, nossos resultados fornecem evidências de aumento do risco de distúrbios neurológicos de longo prazo em pessoas que tiveram COVID-19. Estimamos que a taxa de risco de qualquer sequela neurológica foi de 1,42 (intervalos de confiança de 95% 1,38, 1,47) e carga 70,69 (intervalos de confiança de 95% 63,54, 78,01) por 1.000 pessoas em 12 meses. Os riscos e encargos foram elevados mesmo em pessoas que não necessitaram de hospitalização durante a COVID-19 aguda. As limitações incluem uma coorte composta principalmente por homens brancos. Em conjunto, nossos resultados fornecem evidências de aumento do risco de distúrbios neurológicos de longo prazo em pessoas que tiveram COVID-19.

A COVID longa – o termo abrangente que descreve a constelação de sequelas pós-aguda após a infecção por SARS-CoV-2 – pode envolver uma ampla gama de disfunção de órgãos extrapulmonares 1 incluindo várias anormalidades neurológicas estruturais 2 . Até o momento, a maioria dos estudos examinando distúrbios neurológicos clínicos pós-agudos de COVID-19 foi limitada a pessoas que foram hospitalizadas durante a fase aguda de COVID-19, e todos os estudos tiveram duração de acompanhamento inferior a 6 meses com uma seleção estreita de resultados neurológicos 3 , 4 , 5 , 6 , 7 , 8. Uma avaliação abrangente dos resultados neurológicos pós-agudos do COVID-19 em 12 meses é necessária, mas ainda não foi realizada. Estudos de desfechos neurológicos pós-agudos da COVID-19 em todo o espectro de cuidados da fase aguda da doença (não hospitalizados, hospitalizados e internados em terapia intensiva) também não estão disponíveis. Abordar essa lacuna de conhecimento é importante para ajudar a orientar as estratégias de atendimento pós-COVID-19 e o planejamento da capacidade do sistema de saúde.

Aqui, aproveitamos a amplitude e a profundidade dos bancos de dados nacionais de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA para construir uma coorte de 154.068 pessoas que sobreviveram aos primeiros 30 dias de COVID-19 e dois grupos de controle: uma coorte contemporânea composta por 5.638.795 usuários do Departamento dos EUA do Veterans Health Care System (VHA) sem evidência de infecção por SARS-CoV-2 e uma coorte histórica (anterior à pandemia global de COVID-19) consistindo de 5.859.621 usuários de VHA durante 2017. Empregamos um desenho de estudo observacional longitudinal e usamos o inverso ponderação de probabilidade para equilibrar as coortes e estimou os riscos e encargos em 12 meses de um conjunto de resultados neurológicos pré-especificados na coorte geral e por ambiente de atendimento da fase aguda do COVID-19 (não hospitalizado, hospitalizado e internado em terapia intensiva).

Resultados

Havia 154.068, 5.638.795 e 5.859.621 participantes no COVID-19, o controle contemporâneo e os grupos de controle histórico, respectivamente (Fig. 1 ). O tempo médio de acompanhamento nos grupos COVID-19, controle contemporâneo e controle histórico foi de 408 (intervalo interquartil: 378–500), 409 (379–505) e 409 (379–504) dias, respectivamente. Os grupos COVID-19, controle contemporâneo e controle histórico tiveram 185.399, 6.808.464 e 7.071.123 pessoas-anos de acompanhamento, respectivamente; total correspondendo a 14.064.985 pessoas-anos de seguimento.

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Fonte: Nature

Médicos do Hospital das Clínicas lançam nova edição de livro sobre Medicina Intensiva

Luciano Azevedo, Bruno Besen, Milton de Arruda Martins e José Paulo Ladeira

Médicos da Disciplina de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas (HC), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), lançaram a 5ª edição do livro Medicina Intensiva – Abordagem Prática, da editora Manole. 

São os autores: Luciano César Pontes de Azevedo, Leandro Utino Taniguchi, José Paulo Ladeira e Bruno Adler Maccagnan Pinheiro Besen.

A obra traz, entre outros temas, as novas condutas diante de situações de sepse (infecção generalizada).

A manhã de autógrafos aconteceu no hall do Instituto Central do Hospital das Clínicas (ICHC), no dia 21 de setembro, com a participação do Prof. Milton de Arruda Martins, Titular do Departamento de Clínica Médica e Presidente da Comissão de Graduação da FMUSP, e demais autoridades da saúde.

Fonte: FMUSP

Obesidade infantil e saúde do feto viram objeto de estudo do Projeto Coorte

O estudo traz uma relevância inédita ao avaliar a composição corporal do feto e sua relação com a mãe – Fotomontagem sobre obesidade infantil – Arte: Ana Júlia Maciel/ Jornal da USP

Projeto da Faculdade de Saúde Pública se pauta no estudo sobre o estado nutricional das crianças, ainda durante a gestação, e correlaciona a obesidade infantil com fatores genéticos advindos da mãe e do ambiente

Projeto Coorte sobre estado nutricional de crianças da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP – USP) avalia fatores genéticos e ambientais na instalação precoce da obesidade desde a fase uterina. A professora Patrícia Helen Rondo, coordenadora do projeto de pesquisa, salienta que a importância do estudo está relacionada à questão sobre a obesidade ser uma pandemia que atinge não apenas a população adulta como também as crianças, e as consequências relacionadas ao sobrepeso. 

Os estudos sobre as causas da obesidade na fase uterina concentraram-se no objetivo de entender a formação da adipogênese, ou massa gorda, em crianças. A avaliação foi feita no segundo trimestre da gestação, com 2 mil gestantes, na cidade de Araraquara, em 2017 e, a partir dela, também foi possível observar a relação com a mãe e com fatores genéticos e ambientais. 

Com um acompanhamento a longo prazo, foi possível identificar essa relação entre o índice de massa corporal pré-gestacional das mães, que está ligado ao ganho de peso durante a gestação, e o seu perfil glicêmico. Patrícia explica que isso ocorre porque a avaliação é feita no período gestacional e no neonatal, a partir da expressão gênica e do metabolismo lipídico do bebê, por meio do cordão umbilical. E adiciona: “Estamos tentando entender, através de mecanismos filogenéticos e de expressão gênica que estão relacionados com a formação da massa gorda já na vida fetal”. 

Justamente por avaliar a composição corporal do feto e sua relação com a mãe, ao invés de pautar-se no tamanho e peso do bebê, o estudo traz uma relevância inédita. No que diz respeito à gestante, também buscou entender o porquê da maioria delas sofrer com a retenção de peso no período pós-parto e a predisposição a doenças crônicas. 

Doenças crônicas 

O estudo também tem como objetivo estudar a relação do sobrepeso infantil com a predisposição a doenças crônicas em crianças. Correlacionando a fatores maternos genéticos, a professora explica que, a partir dele, seria possível observar o risco a que o bebê estaria sujeito. “Não só saber quais são os fatores maternos genéticos relacionados com essa massa gorda do bebê, mas que risco esse bebê pode ter futuramente”, complementa. 

Em relação à saúde materna, a professora chama atenção para os processos posteriores ao pré-natal e à gestação em si. Para ela, o período puerpério acaba recebendo uma menor atenção, mesmo sendo de “extrema importância”, pois é nesse intervalo que a mãe irá recuperar o peso e amamentará. 


Fonte: Jornal da USP no Ar 

Fiocruz recebe registro da Anvisa para primeiro teste diagnóstico nacional de monkeypox

A Fiocruz, por meio do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), recebeu da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nesta terça-feira (20/9), o registro definitivo do Kit Molecular Multiplex OPXV/MPXV/VZV/RP para diagnóstico de monkeypox e outras patologias com sintomas semelhantes, de forma diferencial. Com isso, o Instituto passa a ser o detentor do primeiro registro de um produto diagnóstico para a doença totalmente produzido no país. 

O kit, desenvolvido a partir das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) relacionadas ao diagnóstico da monkeypox, é baseado na tecnologia de PCR em tempo real com ensaios multiplex e possibilita a identificação do DNA do vírus causador através da coleta de material retirado das erupções cutâneas (pústulas) presentes no indivíduo com suspeita de infecção do gênero Orthopoxvirus, pertencente à família Poxviridae. Desta forma, permite a detecção e diagnóstico clínico diferenciais dos alvos orthopox geral, monkeypox geral e varicella zoster, além de contar com o controle do kit (RNaseP), conferindo maior capacidade de esclarecimento diagnóstico, importante para a vigilância epidemiológica no SUS. 

Para conceder o registro, a Anvisa analisa uma série de requisitos técnicos, entre os quais estão o desempenho clínico e o gerenciamento de risco, que servem para garantir a adequabilidade do produto ao uso proposto. Segundo a avaliação, o produto atendeu aos critérios técnicos definidos pela Agência. 

Bio-Manguinhos/Fiocruz já vem fornecendo o kit para uso em pesquisa para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) e está preparado para atender a possíveis demandas do Ministério da Saúde com o kit registrado, considerando o tempo de produção e controle de qualidade. O Instituto também dispõe de capacidade para escalonar a produção destes novos kits, sem que haja impacto na oferta de outros produtos de seu portfólio. A distribuição e possibilidade de oferta dos kits para os estados será definida de acordo com a estratégia a ser adotada pela pasta.

Além do Kit Molecular Multiplex OPXV/MPXV/VZV/RP, Bio-Manguinhos/Fiocruz submeteu o pedido de registro do Kit Molecular monkeypox (MPXV), baseado na mesma tecnologia, também com uso voltado para detecção e tipagem, contendo os alvos monkeypox geral, África Ocidental e África Central (Congo). O Instituto ainda aguarda o seu deferimento.

Fonte: FIOCRUZ

Experimentos mostram como ácido ascórbico age contra agregação de placas amiloides

Testes preliminares partem da hipótese que, ao impedir acúmulo de proteínas, substância poderia evitar formação de fibras características da doença de Alzheimer. Pesquisa com células, em animais e em seres humanos são necessárias para verificar se a hipótese se confirma.

Imagem cedida pelos pesquisadores

O ácido ascórbico está sendo estudado por um provável potencial de evitar acúmulo de proteínas ao redor dos neurônios (células do sistema nervoso), prevenindo a formação de fibras que são consideradas a principal característica da doença de Alzheimer. Experimentos in vitro e análises computacionais realizadas no Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP buscaram demonstrar física e quimicamente o mecanismo e explicá-lo.

“O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que afeta principalmente pessoas acima de 65 anos. Os principais sintomas são perda de memória e comprometimento cognitivo”, explicam ao Jornal da USP a pesquisadora Isabella Sampaio e o professor Valtencir Zucolotto, coordenador do Grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia (GNano) do IFSC, responsável pela pesquisa, cujos resultados são apresentados em artigo publicado na revista científica Biochimi. “Apesar da incidência crescente no Brasil, devido ao envelhecimento populacional, ainda não há um tratamento que previna ou que impeça o avanço da doença”, dizem.

De acordo com os pesquisadores, “alguns estudos mostravam que pacientes com Alzheimer apresentavam uma quantidade diminuída no cérebro de ácido ascórbico, conhecido popularmente como vitamina C, que é uma molécula com propriedade antioxidante e que desempenha um papel fundamental no nosso sistema imune”. “O objetivo da nossa pesquisa então foi avaliar o efeito do ácido ascórbico na agregação dos peptídeos β-amiloide através de experimentos in vitro e por métodos computacionais, como dinâmica molecular, em colaboração com o professor Alessandro Nascimento, do IFSC.”

O trabalho é preliminar, e não significa que sair tomando a substância vá prevenir a doença ou contê-la em quem já a apresenta – o excesso pode inclusive ser prejudicial. Uma série de pesquisas precisa ser feita, incluindo testes em células, depois em animais e, finalmente, em humanos, para saber como o conhecimento produzido nesta etapa poderá ser aproveitado.

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Fonte: Jornal da USP