Fiocruz submete novo teste de Covid-19 à Anvisa

Por meio do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), a Fiocruz acaba de finalizar o desenvolvimento de dois novos testes moleculares para o diagnóstico da Covid-19 e um desses teve seu pedido de registro submetido, nesta terça-feira (18/1), à Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa). Trata-se do Kit Molecular Inf A/Inf B/SC2, um teste do tipo RT-PCR que diferencia os vírus da Influenza A, B e do Sars-CoV-2, possibilitando o diagnóstico destas doenças em um único teste. 

“Sempre que falamos em infecção respiratória, nos referimos a um tipo de doença que pode ser provocada por uma enorme gama de microrganismos. Por apresentarem sintomas muito semelhantes, realizar a identificação do agente causador da doença sem a realização do diagnóstico laboratorial é algo desafiador. A disponibilização destes kits no Sistema Único de Saúde [SUS] permitirá de modo econômico e com alto processamento a identificação viral oportuna destes agentes, com o método que é o padrão ouro para o diagnóstico das doenças causadas por vírus respiratórios no mundo”, explica o virologista e pesquisador do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do IOC/Fiocruz Fernando Motta. O laboratório atua como referência em vírus respiratórios para o Ministério da Saúde.

Já o outro teste desenvolvido, o kit molecular Quadriplex SC2/VOC, vai permitir a detecção e triagem das variantes Alfa, Beta, Gama, Delta e Ômicron do vírus Sars-CoV-2, também com a tecnologia de PCR em Tempo Real (RT-PCR). Seu uso é indicado para o diagnóstico e triagem viral a partir da identificação de cepas potencialmente importantes para a saúde pública e vigilância epidemiológica do país, designadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como VOCs (sigla em inglês para variantes de preocupação). O resultado desse teste indica a presença ou não dessas variantes. Para a identificação da variante ainda seria necessário o sequenciamento genético da amostra. O teste Quadriplex deverá ser submetido para registro junto à Anvisa até a próxima semana. 

“Ambos os kits moleculares são mais uma importante contribuição de Bio-Manguinhos em um momento em que vivenciamos um aumento de casos de Covid-19, fruto da variante Ômicron, assim como estamos registrando um alto número de infectados pela influenza. Tais testes atestam a expertise do Instituto no campo do diagnóstico, sempre com respostas rápidas em momentos sensíveis”, afirma o vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Sotiris Missailidis. 

Os novos testes foram desenvolvidos com o objetivo de apoiar as estratégias de enfrentamento da pandemia provocada pelo Sars-CoV-2 e suas variantes, e também dos casos de influenza, que vêm crescendo no país. A Fiocruz tem o diferencial de ter dentro da própria instituição toda a cadeia produtiva em saúde: desde a pesquisa, passando pelo desenvolvimento tecnológico até a produção final. “Por isso, unimos todo a expertise do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz, que é referência da Organização Mundial da Saúde em Covid-19 nas Américas, com a experiência e capacidade produtiva que já temos em Bio-Manguinhos”, destaca o vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde, Marco Krieger.

Produção de testes

Além do desenvolvimento de novos testes para atender às demandas de monitoramento epidemiológico da Rede de Vigilância em Vírus Respiratórios da CGLAB/MS, a Fiocruz tem sido responsável pela produção de testes para o diagnóstico da Covid-19 desde o início do enfrentamento à pandemia. 

Até o momento, já foram fornecidos ao Ministério da Saúde cerca de 20 milhões de testes RT-PCR (moleculares). Em agosto de 2021, a instituição passou a produzir também testes rápidos de antígeno para os laboratórios públicos de todo o país. O fornecimento de testes ao Ministério da Saúde tem ocorrido de acordo com o cronograma e demanda estabelecida junto à pasta. Até o momento, já foram entregues cerca de 45 milhões desses testes. Atualmente, a Fiocruz é o maior produtor nacional de testes rápidos para o diagnóstico da doença e o maior fornecedor do SUS.

Fonte: FIOCRUZ

Conscientização da população tornou positivo saldo do primeiro ano de vacinação contra a covid-19

As primeiras doses das vacinas pediátricas chegaram ao Brasil no último dia 13 – Foto: Pfizer

Há um ano, o Brasil iniciou o processo de imunização contra o coronavírus em São Paulo ao vacinar a enfermeira Mônica Calazans, primeira pessoa imunizada no País. Aqui, atualmente, enfrenta-se uma nova fase da pandemia, com o aumento do número de casos com a variante ômicron e se inicia a vacinação de crianças a partir desta segunda-feira (17). Esper Kallás, infectologista e professor do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, comenta ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição sobre os saldos positivos da campanha vacinal brasileira e a urgência da vacinação infantil.

“As vacinas contribuíram enormemente para o enfrentamento da pandemia”, comenta Kallás, ao lembrar que o Brasil teve quatro imunizantes aplicados ao longo do último ano. Em novembro de 2020, por exemplo, o grupo de idosos acima de 60 anos representava 79% das mortes por infecção pelo coronavírus. Após o início da vacinação, de acordo com uma análise do banco de dados do SUS feita pelo veículo Poder360, a faixa etária passou a representar quase 58% das mortes, uma diminuição evidente e que foi possível devido à imunização. Kallás analisa que a vacinação trouxe muitos impactos positivos e um deles foi a queda de internação de idosos durante a segunda onda, que aconteceu entre maio e junho.

“Nós não sofremos da mesma forma que os outros países com a onda delta graças à vacinação”, lembra o infectologista.

Ômicron e vacinação infantil

A variante omicrôn, classificada como variante de preocupação pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi descoberta em novembro do ano passado e, desde então, causou o aumento do número de casos de infecção em todo o mundo, batendo o recorde de 3,2 milhões de casos em 24 horas e aumento de 600% da média móvel no Brasil.

Mais transmissível e mais agressiva em não vacinados, Kallás explica que a variante omicrôn causa sintomas leves da covid-19 em vacinados e que a vacina é o fator que impede o desenvolvimento de quadros graves da doença. “Mesmo que o vírus passe pela defesa inicial e comece a causar um quadro de nariz entupido, dor de garganta, dor de cabeça e um pouco de febre, a vacina está protegendo a pessoa de não ir parar no hospital”, avalia Kallás, ao lembrar que, na Europa e nos Estados Unidos, mais de 95% das internações por covid-19 são de pessoas não vacinadas.

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Fonte: Jornal da USP

Estudo alerta para altos níveis de depressão e pensamentos suicidas em trabalhadores de saúde na América Latina durante a pandemia

Salud mental de los trabajadores de salud

OPAS pede proteção à saúde mental dos trabalhadores de saúde e alerta que a pressão sobre eles devido ao recente aumento de casos da COVID-19 pode seguir afetando sua saúde

Washington, D.C., 13 de janeiro de 2022 (OPAS) – Trabalhadores de saúde de onze países latino-americanos apresentam altas taxas de sintomas depressivos, pensamentos suicidas e sofrimento psíquico, conforme os resultados de um estudo liderado pela Universidade do Chile e Universidade da Columbia (nos Estados Unidos), com a colaboração da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

O relatório COVID-19 Health care wOrkErs Study (HEROES) mostra que entre 14,7% e 22% dos trabalhadores de saúde entrevistados em 2020 apresentaram sintomas que levaram à suspeita de um episódio depressivo, enquanto entre 5% e 15% dos trabalhadores disseram que pensaram em cometer suicídio. O estudo também mostra que, em alguns países, apenas cerca de um terço dos que disseram precisar de atendimento psicológico realmente o receberam.

“A pandemia mostrou o desgaste dos trabalhadores de saúde e, nos países onde o sistema de saúde entrou em colapso, o profissional sofreu com jornadas extenuantes e dilemas éticos que tiveram impacto em sua saúde mental”, disse Anselm Hennis, diretor do Departamento de Doenças Não Transmissíveis e Saúde Mental da OPAS. “A pandemia não acabou. É fundamental cuidar de quem cuida de nós”, frisou.

O relatório realizou entrevistas com 14.502 trabalhadores de saúde da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Bolívia, Guatemala, México, Peru, Porto Rico, Venezuela e Uruguai, e contou com a participação de acadêmicos e pesquisadores de dezenas de instituições desses países.

A necessidade de apoio emocional e financeiro, preocupação em contagiar familiares, conflitos com parentes de pessoas infectadas e mudanças nas funções habituais de trabalho foram alguns dos principais fatores que afetaram a saúde mental dos funcionários.

Por outro lado, confiar que a instituição de saúde e o governo conseguiriam lidar com a pandemia, ter o apoio dos colegas de trabalho e se considerar uma pessoa espiritual ou religiosa foram citados como alguns dos fatores que ajudaram a proteger sua saúde mental.

“A pandemia aumentou o estresse, a ansiedade e a depressão dos trabalhadores de saúde e expôs a falta de políticas específicas para proteger a saúde mental. Há uma dívida de saúde que deve ser paga”, considerou Rubén Alvarado, acadêmico do programa de saúde mental da Faculdade de Medicina da Universidade do Chile e um dos principais pesquisadores do estudo.

O relatório destaca que é urgente desenvolver políticas específicas que permitam organizar ações para proteger a saúde mental desses trabalhadores. Nesse sentido, recomenda-se modificar o ambiente laboral e garantir condições de trabalho adequadas. Além disso, conceder remuneração digna, condições contratuais estáveis ​​e criar espaços onde as equipes possam conversar, desabafar e praticar o autocuidado.

Da mesma forma, o documento pede apoio aos trabalhadores de saúde para o cuidado de seus filhos e pessoas idosas sob seus cuidados, já que a maioria são mulheres e cuidadoras. Recomenda-se também colocar em prática as diretrizes para proteger a saúde mental dos trabalhadores dos centros de saúde e tornar os serviços de saúde mental acessíveis a esses trabalhadores.

“Após dois anos da pandemia, muitos trabalhadores ainda não recebem o apoio que precisam e isso pode fazer com que desenvolvam diferentes transtornos mentais nos próximos anos, algo para o qual temos que estar preparados”, alertou Ezra Susser, da Univer.

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Fonte: OPAS

Ômicron e as vacinas de vírus inativados

Vacinação em massa em razão do Templo Prambanan.
Um homem em trajes tradicionais javaneses recebe uma dose da vacina Sinovac COVID-19 em um templo em Yogyakarta, na Indonésia.
Crédito: Ulet Ifansasti/Getty

As vacinas COVID-19 mais usadas no mundo oferecem pouca ou nenhuma proteção contra a infecção com a variante Omicron que se espalha rapidamente , sugerem evidências laboratoriais.

As vacinas de vírus inativado contêm partículas de SARS-CoV-2 que foram tratadas quimicamente para impossibilitar que causem uma infecção. Estáveis ​​e relativamente fáceis de fabricar, essas vacinas foram amplamente distribuídas como parte da diplomacia global de vacinas da China, ajudando-as a se tornar a vacina preferida em muitos países. Mas uma infinidade de experimentos mostra que eles são consistentemente prejudicados pela Ômicron.

Muitas pessoas que recebem duas injeções de uma vacina inativada não conseguem produzir moléculas imunes que podem combater a transmissão Ômicron. E mesmo após uma terceira dose de uma vacina inativada, os níveis de anticorpos ‘neutralizantes’ de um indivíduo, que fornecem uma proteção potente contra a infecção viral das células, tendem a permanecer baixos. Uma terceira dose de outro tipo de vacina, como as baseadas em RNA mensageiro ou proteínas purificadas , parece oferecer melhor proteção contra o Ômicron.

As descobertas estão levando muitos cientistas e pesquisadores de saúde pública a reavaliar o papel das vacinas inativadas na luta global contra o COVID-19.

“Nesta fase, temos que evoluir nossas ideias e ajustar nossas estratégias de vacinação”, diz Qiang Pan-Hammarström, imunologista clínico do Instituto Karolinska em Estocolmo.

Bilhões servidos

As vacinas inativadas foram fundamentais na campanha pela cobertura vacinal mundial no ano passado. Eles incluem os fabricados pelas chinesas Sinovac e Sinopharm, que juntas respondem por quase 5 bilhões das mais de 11 bilhões de doses de vacina COVID-19 entregues globalmente até agora, de acordo com números compilados pela empresa de rastreamento de dados Airfinity em Londres (consulte ‘Muitos escudos contra o COVID-19’). Mais de 200 milhões de doses de outras injeções inativadas, como o Covaxin da Índia, o COVIran Barekat do Irã e o QazVac do Cazaquistão também foram entregues.

Fonte: Nature

Além da Ômicron: o que vem a seguir para a evolução viral do COVID

Uma árvore filogenética abstrata com algumas formas de vírus mudando de forma ao longo dela
Ilustração de Ana Kova

À medida que o mundo se aproximava de uma pandemia no início de 2020, o biólogo evolucionário Jesse Bloom olhou para o futuro do SARS-CoV-2. Como muitos especialistas em vírus da época, ele previu que o novo patógeno não seria erradicado. Em vez disso, se tornaria endêmico – o quinto coronavírus a se estabelecer permanentemente em humanos, ao lado de quatro coronavírus “sazonais” que causam resfriados relativamente leves e circulam em humanos há décadas ou mais.

Bloom, que está sediado no Fred Hutchinson Cancer Research Center em Seattle, Washington, viu esses coronavírus sazonais como potencialmente fornecendo um roteiro de como o SARS-CoV-2 pode evoluir e para o futuro da pandemia. Mas pouco se sabe sobre como esses outros vírus continuam a prosperar. Um dos exemplos mais bem estudados – um coronavírus sazonal chamado 229E – infecta as pessoas repetidamente ao longo de suas vidas. Mas não está claro se essas reinfecções são o resultado da diminuição das respostas imunes em seus hospedeiros humanos ou se as mudanças no vírus o ajudam a evitar a imunidade. Para descobrir, Bloom obteve amostras de sangue de décadas de pessoas provavelmente expostas ao 229E e as testou para anticorpos contra diferentes versões do vírus desde a década de 1980.

Os resultados foram surpreendentes 1 . Amostras de sangue da década de 1980 continham altos níveis de anticorpos bloqueadores de infecção contra uma versão de 1984 do 229E. Mas eles tinham muito menos capacidade de neutralizar uma versão do vírus dos anos 1990. Eles foram ainda menos eficazes contra variantes 229E dos anos 2000 e 2010. O mesmo vale para amostras de sangue da década de 1990: as pessoas tinham imunidade a vírus do passado recente, mas não aos do futuro, sugerindo que o vírus estava evoluindo para escapar da imunidade.

“Agora que tivemos quase dois anos para ver como o SARS-CoV-2 evolui, acho que há paralelos claros com o 229E”, diz Bloom. Variantes como Ômicron e Delta carregam mutações que diminuem a potência dos anticorpos criados contra versões anteriores do SARS-CoV-2. E as forças que impulsionam essa “mudança antigênica” provavelmente se tornarão mais fortes à medida que a maior parte do planeta ganha imunidade ao vírus por meio de infecção, vacinação ou ambos. Os pesquisadores estão correndo para caracterizar a variante Ômicron. Mas sua rápida ascensão na África do Sul sugere que já encontrou uma maneira de evitar a imunidade humana.

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Fonte: Nature

Estudos detalham a eficiência das máscaras Testes revelam como e quanto o uso de diferentes modelos de proteção facial limita a disseminação pelo ar de doenças infecciosas, como a Covid-19

Usadas corretamente, as máscaras cirúrgicas reduzem o contágio – embora bem menos que as do tipo PFF2

Léo Ramos Chaves

Há quase dois anos, um acessório até então restrito a alguns ambientes profissionais específicos, como o hospitalar, o da construção civil e o da mineração, tornou-se obrigatório no cotidiano das pessoas e passou a ser visto nas ruas de todas as cidades do planeta. Em face da gravidade e da longa duração da pandemia da Covid-19, as máscaras de proteção respiratória tornaram-se onipresentes e devem continuar sendo usadas por mais algum tempo. Os diferentes modelos de máscara têm sido alvo de pesquisas que buscam avaliar sua importância para conter não apenas a disseminação do Sars-CoV-2, mas também para ajudar a deter outros surtos infecciosos, como a recente onda da gripe H3N2 que se espalha por vários estados brasileiros.

Um dos estudos mais recentes foi divulgado em dezembro pelo Instituto Max Planck, na Alemanha. O trabalho confirmou o eficiente papel exercido pelas máscaras como escudos antivírus. Um artigo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) constatou que, mesmo a 3 metros (m) de distância, uma pessoa não vacinada contra a Covid-19 e sem máscara leva menos de cinco minutos para se infectar com o novo coronavírus a partir da respiração de um portador do vírus que também esteja sem o acessório de proteção.

A boa notícia é que se essas mesmas duas pessoas estivessem usando máscaras de padrão PFF2 – conhecidas em outros países como N95 –, bem ajustadas ao rosto, a chance de contágio, com quatro vezes mais tempo de contato (20 minutos), seria de apenas 0,1% – ou seja, uma chance a cada mil. Outra conclusão do estudo, liderado pelo pesquisador Eberhard Bodenschatz, é de que os modelos PFF2 (de peça facial filtrante) conferem proteção 75 vezes superior às máscaras cirúrgicas – estas, por sua vez, reduzem o risco de contágio para, no máximo, 10%, caso sejam usadas de forma adequada, coladas ao rosto.

Pesquisadores brasileiros são os autores de uma das investigações mais abrangentes sobre a eficiência das máscaras faciais. Realizado por um grupo do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), o trabalho avaliou 227 diferentes máscaras – desde as feitas com tecnologia de ponta, como as de padrão PFF2/N95, até as costuradas em casa, passando por máscaras cirúrgicas e por aquelas vendidas no comércio popular, com tecidos sintéticos ou de algodão. Os resultados foram publicados na revista Aerosol Science and Technology em abril de 2021. “No começo da pandemia, a Faculdade de Medicina [FM] da USP entrou em contato com o professor Vanderley John, do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica [Poli-USP], dizendo que só tinha máscaras para mais três semanas, tanto no Hospital das Clínicas como no Hospital Universitário. Como o mercado não estava dando conta de atender a alta demanda, a FM-USP sugeriu a testagem de tecidos alternativos para confecção de máscaras”, lembra o estudante de doutorado do IF-USP Fernando Morais, principal autor do estudo.

A iniciativa se transformou no projeto respire!, liderado por John, que procurou colegas do IF-USP para testar a filtração dos artefatos. Para isso, o grupo adaptou um equipamento que costuma ser utilizado para verificar a qualidade do ar na região amazônica e em São Paulo, medindo a quantidade de partículas na atmosfera.

“Nosso grupo estuda aerossóis atmosféricos e seus impactos no ambiente e no clima. Nós já tínhamos a instrumentação, inclusive financiada pela FAPESP, para medir nanopartículas da ordem de 10 nanômetros [nm], que são 100 vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo. Também tínhamos geradores de aerossóis capazes de fornecer partículas do tamanho que precisávamos, entre 60 e 300 nm”, descreve o físico Paulo Artaxo, do IF-USP, um dos coautores da pesquisa e coorientador de Morais no doutorado.

Ao verificar a capacidade de filtração de partículas (que impede o vírus de ser expelido ou respirado) e a respirabilidade das máscaras (que mede quanto elas facilitam ou dificultam a passagem do ar) foi possível combinar os dois valores e calcular um fator de qualidade (FQ) para cada modelo avaliado (ver infográfico). “Nosso estudo foi pioneiro no mundo ao combinar medidas de filtragem com respirabilidade, o que é relevante, pois muita gente não gosta de usar máscara quando ela dificulta a respiração”, diz Artaxo.

Os resultados da investigação comprovaram o que já se sabia – a importância do uso das máscaras no controle epidemiológico de doenças transmitidas pelo ar – e trouxeram detalhes sobre a eficiência dos diferentes tipos de cobertura facial. Considerando somente a filtração, as máscaras que mais se destacaram foram, como esperado, as PFF2/N95, barrando a passagem de 98% das partículas nos tamanhos testados (de 60 a 300 nm).

As máscaras cirúrgicas apresentaram 89% de capacidade de filtragem e as de TNT (tecido não tecido, material obtido por meio de uma liga de fibras e um polímero) formado por três camadas (conhecido como SMS) filtraram 78% das partículas. Máscaras de algodão apresentaram menor retenção de partículas (entre 20% e 60%) porque a trama do tecido deixa mais espaço entre os fios. Se houver costura nessas máscaras, aumenta ainda mais o risco de passagem de partículas que carregam o vírus.

Em termos de respirabilidade, o destaque ficou com as máscaras de TNT, seguidas de perto pelas cirúrgicas. As PFF2/N95 e as de algodão tiveram um índice de respirabilidade menor, mas que não dificulta seu uso, mesmo por longos períodos. “Quando a respirabilidade é extremamente baixa, o ar tem dificuldade para atravessar a máscara. Isso é ruim porque a pessoa tira a máscara na primeira oportunidade”, alerta Artaxo.

Correlacionando os dados de filtração com os de respirabilidade, o fator de qualidade de cada máscara foi comparado ao padrão recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Esse índice precisa ser superior a 3 para que a máscara atenda aos requisitos mínimos de filtragem e respirabilidade propostos pela OMS”, explica Morais.

No estudo da USP/Ipen, as PFF2/N95, as cirúrgicas e as de TNT passaram pelo crivo da OMS, com altos FQ de 13,2, 15,9 e 24,9, respectivamente. Já as máscaras caseiras de algodão, considerando uma média de respirabilidade de 40%, não atingiram o patamar de recomendação, pontuando somente 1,4. “Mesmo que alguns modelos tenham um fator de qualidade muito baixo, é importante lembrar que qualquer máscara é melhor do que não usá-la. Embora dentro do espectro das máscaras haja modelos melhores e piores, eles continuam sendo todos eficientes”, diz o engenheiro biomédico Vitor Mori, membro do Observatório Covid-19 BR.

Um aspecto relevante não abordado pelo trabalho de Artaxo, Morais e John foi a vedação. Ajustar a máscara ao rosto, evitando brechas no contato do acessório com nariz, queixo e bochechas, é essencial para que a filtração na vida real seja a mesma observada em laboratório. Mori explica que há dois elementos que contribuem para uma melhor vedação. “Se a máscara tem clipe nasal e elásticos para prendê-la na nuca, ela tem mais condição de ficar bem ajustada ao rosto. Com uma melhor vedação, o ar que sai e o que entra passa somente pelo filtro, maximizando a retenção de partículas”, afirma. Segundo Artaxo, um bom ajuste da máscara ao rosto é essencial para que ela proporcione a retenção adequada. Recomendação nesse sentido consta do artigo de seu grupo.

Vírus retidos
Outra pesquisa sobre o uso de máscaras feita no país, que utilizou como amostra um grupo de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, revelou um aspecto interessante relacionado ao uso desses itens de proteção: o patógeno foi encontrado apenas na camada interna das máscaras, sugerindo um bloqueio na transmissão. Feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o estudo analisou 45 peças faciais utilizadas em situações cotidianas por 28 pacientes, sendo 30 delas de tecido de algodão, com duas ou três camadas, e 15 do modelo cirúrgico.

Os resultados, publicados como preprint (artigos ainda não submetidos ao processo formal de revisão por pares) no repositório medRxiv, sugerem que máscaras variadas dificultam ou impedem que os vírus sejam expelidos com alto grau de eficiência – reforçando a ideia de que proteções respiratórias evitam, antes de tudo, que infectados espalhem doenças.

“Diversos dados indicam que a presença de múltiplas camadas da máscara é um fator importante para a proteção, assim como a porosidade do tecido, que não pode ser excessiva”, destacou Andreza Salvio, doutora em biologia parasitária do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) da Fiocruz e uma das integrantes da equipe responsável pelo estudo, em material divulgado pela instituição. “Além disso, é fundamental perceber que a máscara é só uma entre diversas medidas que devem ser adotadas para conter a disseminação da Covid-19, ao lado, por exemplo, do distanciamento social e da vacinação”, completou.

Sem interferência
Outro estudo, também da FM-USP, apoiado pela FAPESP e divulgado no medRxiv como preprint, indica que o uso de máscaras, ainda que possa causar algum desconforto, não interfere significativamente nos padrões de respiração e na fisiologia cardiovascular, inclusive durante a prática de exercício físico em intensidades moderadas a altas.

Os pesquisadores trabalharam com 17 homens e 18 mulheres saudáveis realizando testes ergoespirométricos em esteira – que avaliam as respostas cardiopulmonares por meio da troca de gases expirados e inspirados ao longo do exercício físico –, coleta de lactato (indicador de intensidade de esforço físico e de fadiga muscular) e monitoramento cardíaco constante, em variados graus de esforço. Os voluntários correram uma sessão com máscara de tecido de três camadas e outra sessão sem o acessório, possibilitando a comparação.

“O estudo mostra que a máscara de tecido não afetou substancialmente as variáveis fisiológicas ou metabólicas durante o exercício físico aeróbico”, afirma Natália Guardieiro, médica do exercício e do esporte, doutoranda da FM-USP e primeira autora do artigo. “Mesmo nos exercícios mais intensos, os efeitos da máscara foram mínimos, pois o organismo realiza compensações fisiológicas. Portanto, a máscara não deve ser uma barreira para a prática de atividade física”, conclui.

Artigos científicos
MORAIS, F. G. et al. Filtration efficiency of a large set of Covid-19 face masks commonly used in Brazil. Aerosol Science and Technology. 26 abr. 2021.
GHOLAMHOSSEIN, B. et al. An upper bound on one-to-one exposure to infectious human respiratory particles. PNAS. 2 dez. 2021.
GUARDIEIRO, N.M. et al. A Cloth Facemask Causes No Major Respiratory or Cardiovascular Perturbations during Moderate to Heavy Exercise. medRxiv. 16 dez. 2021.
MELLO, V. M. et al. Effectiveness of face masks in blocking the transmission of Sars-CoV-2: A preliminary evaluation of masks used by Sars-CoV-2-infected individuals. medRxiv. 30 jun. 2021.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Regimes tradicionais de vacinas COVID-19 não neutralizam a variante de rápida disseminação

Mulher recebendo um reforço.

Uma dose adicional de “reforço” da vacina baseada em mRNA Moderna ou Pfizer é necessária para fornecer imunidade contra a variante Omicron do SARS-CoV-2, o vírus que causa o COVID-19, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores do Ragon Institute of MGH , MIT e Harvard. Os resultados deste estudo, relatados na revista  Cell, indicam que os regimes de dosagem tradicionais das vacinas COVID-19 disponíveis nos Estados Unidos não produzem anticorpos capazes de reconhecer e neutralizar a variante Omicron.

No final de novembro, autoridades de saúde da África do Sul relataram que uma variante anteriormente desconhecida do SARS-CoV-2 estava se espalhando rapidamente por todo o país. A variante, que recebeu o nome de Omicron pela Organização Mundial da Saúde, logo se mostraria muito mais transmissível que a Delta, a variante que anteriormente havia causado a maioria das infecções por COVID-19. “As pessoas queriam desesperadamente saber se as vacinas atuais protegem contra o Omicron”, diz o autor sênior do artigo da Cell, Alejandro Balazs, cujo laboratório no Ragon Institute investiga como criar imunidade contra doenças infecciosas.

Para encontrar respostas, Balazs colaborou com uma equipe que incluía o principal autor do artigo da Cell, Wilfredo F. Garcia-Beltran, um residente de patologia clínica no MGH e um pesquisador clínico-cientista do Ragon Institute. O primeiro passo foi construir uma versão inofensiva do Omicron conhecida como “pseudovírus” que pudesse ser usada em laboratório para avaliar a eficácia das três vacinas disponíveis nos Estados Unidos, que incluem a Pfizer de duas doses e a Moderna e a vacina Johnson & Johnson de dose única. O pseudovírus que Balazs e colegas criaram imitou o comportamento do Omicron, que possui 34 mutações em sua proteína “spike” que não são encontradas na cepa original do SARS-Cov-2 detectada pela primeira vez em Wuhan, China, em dezembro de 2019.

Em seguida, Garcia-Beltran trabalhou com colegas do MGH, incluindo o colega de hematologia-oncologia Vivek Naranbhai, para adquirir amostras de sangue de 239 indivíduos que foram totalmente vacinados com uma das três vacinas COVID-19. Os sujeitos do estudo incluíram funcionários do sistema de saúde General Brigham de Massachusetts e moradores de Chelsea, Massachusetts, uma comunidade com alta taxa de infecções por COVID-19. “Era importante para nós ter uma população diversificada representada no estudo”, diz Garcia-Beltran. Incluídos neste grupo estavam 70 homens e mulheres que receberam uma terceira dose de reforço da vacina Pfizer ou Moderna, de acordo com as recomendações dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

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Fonte: Harvard Gazette

Revista HCSM recebe artigos para edição especial sobre Covid-19

A revista História, Ciência, Saúde – Maguinhos recebe até 15 de junho de 2022 artigos inéditos para a edição especial Covid-19 en América Latina: conflictos, resistencias y desigualdades, editada pelos pesquisadores Carlos Henrique Paiva e Marcos Cueto, do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde da Casa, Claudia Agostoni, do Instituto de Investigaciones Históricas da Universidad Nacional Autónoma de México, e Karina Ramacciotti, da Universidad Nacional de Quilmes e Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Argentina). A edição será lançada em 2023.

Alguns dos objetivos da edição especial são estabelecer diálogo entre passado e futuro no âmbito da Covid-19, contextualizar a pandemia, fazer comparações com o passado, discutir como ampliar a complexa relação entre ciência, sociedade e política em desastres sanitários, e registrar os desafios dos trabalhadores da saúde.

Além da submissão de trabalhos para a seção Análise, a HSCM também recebe artigos para as seções Resenhas, Depoimentos, Imagens, Fontes, Revisão Historiográfica e Nota de Pesquisa. Os trabalhos podem ser enviados em espanhol, português e inglês. 

Para mais informações, acesse o site da revista.  

Fonte: FIOCRUZ

Novas drogas contra o vírus

Estudo clínico apontou que o molnupiravir, da MSD, reduziu em 30% internações e óbitos em pacientes sintomáticos com pelo menos um fator de risco para Covid-19

MSD

Dois anos após o aparecimento dos primeiros casos de Covid-19 na China, o mundo continua lidando com a pandemia do Sars-CoV-2. Com mais de 7,7 bilhões de doses de vacinas aplicadas ao redor do mundo, a maior parte em nações de alta renda, a porcentagem da população com a cobertura vacinal completa supera os 42%. Mesmo que essa parcela não seja suficiente para interromper a disseminação do vírus – ainda mais quando novas variantes testam a eficácia da imunização –, há avanços em frentes complementares. A novidade mais animadora diz respeito a dois medicamentos antivirais, os primeiros administrados por via oral, com resultados clínicos promissores: o paxlovid, da farmacêutica Pfizer, e o molnupiravir, da Merck Sharp & Dohme (MSD) e da companhia de biotecnologia Ridgeback Biotherapeutics.

O molnupiravir foi aprovado em caráter emergencial no Reino Unido no início de novembro, sob o nome comercial Lavregio. A droga também foi recomendada pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) para uso em pacientes que não necessitam de oxigênio ou que não estejam sob risco de desenvolver a forma grave da doença e está sendo avaliada pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos.

De acordo com a análise final dos resultados de um estudo global feito pela MSD, com 1.433 participantes em 170 países, incluindo o Brasil, a administração do fármaco reduziu em 30% as hospitalizações e mortes por Covid-19 em pacientes sintomáticos com pelo menos um fator de risco para evolução desfavorável da doença (obesidade, diabetes, doença cardíaca grave ou idade acima de 60 anos).

Dos 709 voluntários que receberam o molnupiravir, também chamado de MK-4482 ou EIDD-2801, 48 (6,8%) foram hospitalizados. Entre os 699 participantes que tomaram placebo, 68 (9,7%) foram internados. Nove mortes foram relatadas no grupo placebo contra um óbito entre aqueles que tomaram o antiviral. O tratamento consistiu na administração de 800 miligramas (mg) de molnupiravir, duas vezes ao dia, por cinco dias. Em outubro, a partir da análise preliminar de dados de uma amostra parcial (775 participantes) do ensaio clínico, a farmacêutica havia anunciado uma eficácia maior: era capaz de diminuir em 50% o número de internações e óbitos pela doença.

O comprimido da Pfizer, por sua vez, acaba de ser submetido à aprovação da FDA. A expectativa da empresa é que esteja à disposição para uso ainda este ano. O ensaio clínico feito pela farmacêutica foi desenhado para contemplar 3 mil voluntários em 21 países, entre eles o Brasil. Os bons resultados alcançados permitiram a redução da amostra para 774 pessoas.

O medicamento oferecido até o terceiro dia do início dos sintomas a pacientes com ao menos um fator de risco diminuiu a necessidade de internação ou óbito em 89% em comparação com o grupo que recebeu placebo. Menos de 1% de quem tomou o fármaco (3 pessoas em um grupo de 389) foi hospitalizado, sem que ocorressem mortes, ao passo que 7% entre os que receberam placebo foram hospitalizados ou morreram (27 indivíduos entre 385, com 7 mortes). Assim como no ensaio com o molnupiravir, os pacientes foram tratados por cinco dias com duas doses diárias de 300 mg do paxlovid associado a 100 mg de ritonavir. Essa droga é utilizada no tratamento de pacientes com HIV e ajuda a aumentar o tempo de ação do antiviral no organismo.

Estratégias diferentes
Conforme monitoramento da Biotechnology Innovation Organization, entidade global da indústria de biotecnologia, 264 medicamentos antivirais contra o Sars-CoV-2 estão em desenvolvimento no mundo atualmente, além de 233 vacinas e outros 364 tratamentos, totalizando 861 componentes na esteira da pesquisa e desenvolvimento para conter a pandemia. As tecnologias candidatas a aprovação para uso vacinal ou medicamentoso atuam sobre o vírus de diferentes maneiras.

“O mecanismo de funcionamento do molnupiravir é de amplo espectro. Isso significa que ele age potencialmente em vários vírus cujo material genético é formado por RNA [os vírus também podem ser compostos por DNA]. É o caso dos arbovírus responsáveis pela dengue, chikungunya e zika e do vírus causador da gripe”, explica Marina Della Negra, diretora médica da MSD no Brasil.

Della Negra conta que o molnupiravir, desenvolvido por cientistas da Universidade Emory, de Atlanta, nos Estados Unidos, era, até o início de 2020, um candidato a combater outros vírus. A mudança de foco para o tratamento da Covid-19 surgiu, de forma inesperada, durante uma conferência de saúde em São Francisco, na Califórnia, quando George Painter, presidente do Instituto para o Desenvolvimento de Drogas da Emory, buscava financiamento para pesquisar a ação do fármaco contra a gripe. Durante o evento, ele se encontrou com a CEO da Ridgeback Biotherapeutics, Wendy Holman, que estava interessada no uso do medicamento contra o ebola. A Ridgeback acabou comprando o molnupiravir, e com a eclosão da pandemia de Covid-19 mudou o rumo do desenvolvimento. Os testes clínicos começaram em abril e no mês seguinte a Ridgeback firmou parceria com a MSD.

Esse relato ajuda a explicar a principal qualidade da nova droga. “O mecanismo de ação é inibir a replicação de qualquer RNA viral. Basicamente, ele introduz no organismo partículas análogas aos nucleosídeos [unidades básicas de RNA ou DNA] que formam o código genético do vírus. Isso gera mutações e provoca o que chamamos de erro de catástrofe viral, ou seja, o RNA fica inviável e o vírus não se replica”, detalha Della Negra. Foi essa característica que levou um medicamento inicialmente concebido para combater o vírus causador da influenza a tornar-se mais uma arma no enfrentamento ao Sars-CoV-2.

O fato de o molnupiravir alterar o material genético do novo coronavírus também trouxe à tona uma preocupação: o medicamento poderia provocar mutações genéticas nos portadores do vírus que levasse a efeitos colaterais indesejáveis, como o desenvolvimento de câncer? De acordo com Della Negra, os estudos com o molnupiravir demonstraram baixo risco de genotoxicidade em modelos in vivo, no caso, ratos e outros roedores. “Os estudos de genotoxicidade integram um protocolo estipulado pela Organização Mundial da Saúde [OMS] que seguimos à risca”, informa.

“Existe um risco teórico, mas investigações preliminares em animais, divulgadas pela MSD, não apresentaram riscos aumentados de mutações. No entanto, estudos mais amplos e de longo prazo são necessários”, sustenta o infectologista Eduardo Medeiros, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor científico da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI).

A droga da Pfizer seguiu um caminho diferente. “Temos uma biblioteca com milhares de moléculas que são estudadas e passam por uma triagem periódica para identificação se são promissoras e viáveis para variados fins. Como já existiram outros coronavírus no passado, nós já tínhamos, pelo aprendizado acumulado, uma ideia do tipo de molécula em nosso portfólio que poderia ser eficaz contra um coronavírus emergente”, descreve Marjori Dulcine, diretora médica da Pfizer no Brasil. Ela esclarece que o nome paxlovid é de uso comercial exclusivo nos Estados Unidos, por questões ligadas à legislação de patentes. “Por ora, no restante do mundo, chamamos de PF-07321332 ou molécula 1332.”

O medicamento vai na contramão da abordagem do concorrente da MSD: em vez de atuar contra um amplo espectro viral, a molécula 1332 age exclusivamente contra o vírus causador da Covid-19. “Nossa molécula é a primeira que inibe a protease 3CL, específica do Sars-CoV-2 e fundamental para replicação de seu RNA. Por meio dessa inibição pontual, o medicamento interrompe a proliferação do vírus”, detalha Dulcine. Protease é uma classe de enzimas que rompem ligações peptídicas entre aminoácidos de proteínas. A 3CL do novo coronavírus interrompe cadeias de proteínas associadas à replicação viral e à montagem de novas partículas que infectarão outras células.

Quanto ao risco de toxicidade do paxlovid, Medeiros avalia que, teoricamente, inibidores de protease do Sars-CoV-2 não têm atividade contra células humanas. “Creio, contudo, que são necessários estudos de avaliação de toxicidade hepática e na medula óssea. Qualquer que seja o medicamento testado contra a Covid-19, estudos de longo prazo são fundamentais para avaliar os eventos adversos e as interações com outras medicações.”

Terapias complementares
Infectologistas consultados por Pesquisa FAPESP enfatizaram que os antivirais para a Covid-19 não substituem a vacinação. “A prevenção contra qualquer doença é sempre uma combinação de fatores. Assim como cinto de segurança, airbag e freios ABS preservam a vida de motoristas e passageiros, uso de máscara, distanciamento social, vacinas e, agora, medicamentos específicos são nossos equipamentos contra a Covid-19”, ilustra Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor especial para a Covid-19 da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Associação Médica Brasileira (AMB). “As vacinas reduzem o risco individual de casos graves e de óbito, mas não anulam as chances de que ocorram. Para pessoas idosas, indivíduos imunodeprimidos ou não vacinados, é preciso haver uma estratégia de tratamento para a fase inicial da doença, impedindo a replicação do novo coronavírus no organismo.”

“Outro ponto importante é que o doente com quadro clínico leve a moderado de Covid-19 pode eliminar o vírus por até 10 dias após o início dos sintomas – em imunodeprimidos, o tempo é maior, de 20 dias ou mais. Medicações que reduzam a carga viral e, consequentemente, o tempo de excreção viral também auxiliam no controle de surtos, diminuindo a transmissão da doença”, acrescenta Medeiros.

Uma vantagem adicional das medicações de uso oral contra o Sars-CoV-2 é a facilidade logística. As pílulas são mais simples de transportar, distribuir, armazenar e administrar aos pacientes quando comparadas a terapias de infusão endovenosa, como os anticorpos monoclonais, criados em laboratório. É o caso do fármaco Evusheld (AZD7442), cujos resultados promissores foram divulgados em novembro pela AstraZeneca. Confere 83% de proteção contra sintomas de Covid-19 por pelo menos seis meses e reduz em 88% o risco de agravamento dos sintomas.

Próximos passos
A MSD já solicitou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorização para uso emergencial do molnupiravir contra a Covid-19; o resultado deve sair em 30 dias. O laboratório informa ter produzido 10 milhões de tratamentos para comercialização no mundo – cada tratamento é composto por 40 comprimidos de 200 mg cada a serem tomados ao longo de cinco dias. Para 2022, a previsão é de que o montante ultrapasse 20 milhões. Esse esforço inclui negociações em curso, no Brasil, para cooperação técnica com o Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-Farmanguinhos). O acordo inclui a possibilidade de ensaios no futuro para avaliar a eficácia do antiviral contra dengue e chikungunya.

Já a Pfizer, que até o fechamento desta reportagem ainda não havia dado entrada no pedido junto à Anvisa, estima produzir no próximo ano 50 milhões de tratamentos (10 doses de 300 mg do paxlovid associado a 100 mg de ritonavir) e também divulga estar em negociação com vários países para distribuir o remédio de forma equitativa, de acordo com as necessidades epidemiológicas e financeiras de cada nação – premissa também mencionada pela MSD.

Embora os fabricantes não revelem o custo unitário dos medicamentos, sabe-se que o governo norte-americano pagou cerca de US$ 712 (R$ 4 mil) por cada tratamento de molnupiravir no primeiro lote encomendado à MSD e US$ 529 (R$ 3 mil) para o tratamento da Pfizer. As duas farmacêuticas também firmaram acordos com o Pool de Patentes de Medicamentos da Organização das Nações Unidas (MPP-ONU) para a fabricação de remédios genéricos. O entendimento da MSD com o PMM contempla 105 países com baixo índice de desenvolvimento humano, enquanto o da Pfizer engloba 95 nações com o mesmo perfil. Um estudo feito na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, estima que o custo do tratamento com genéricos fique por volta de US$ 20.

Íntegra do texto publicado em versão reduzida na edição impressa, representada no pdf.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Governos seguem a mesma lógica no enfrentamento da COVID-19 e de desastres climáticos, aponta estudo

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Existe uma correlação entre o enfrentamento da COVID-19 e de desastres ambientais no Brasil, e isso não é bom. Estudo realizado por pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostrou que, além da descontinuidade de recursos, há ainda um problema de base referente à necessidade de políticas para o desenvolvimento urbano que reduzam a distribuição espacial da vulnerabilidade. Os dados foram apresentados na revista Sustainable Cities and Society.

Em uma primeira etapa, a pesquisa comparou os municípios mais afetados por problemas como secas, enchentes e deslizamentos nos últimos dez anos e os que sofreram maior impacto da COVID-19.

“Os 45 municípios mais atingidos por desastres naturais são os mesmos que mais sofreram com altos números de casos e de mortes durante a pandemia. Como os locais coincidem – e são áreas mais vulneráveis em termos de estrutura verde, acesso à saúde e saneamento –, seria interessante atacar os problemas de infraestrutura nessas regiões”, explica Andrea Young, autora do estudo e pesquisadora do Cemaden. O trabalho foi apoiado pela FAPESP.

Entre os municípios no topo do ranking tanto de desastres naturais quanto de impactos causados pela pandemia estão: São Paulo (com 38.770 mortes por COVID-19 em 2020) e Rio de Janeiro (34.102 óbitos), seguidos por Belo Horizonte (6.636 óbitos). “Embora alguns municípios apresentem números reduzidos de desastres em relação a anos anteriores, graças a investimentos em defesa civil, chama a atenção o fato de que Campinas [SP] tenha registrado mais de 4 mil mortes por COVID-19 e que em Santo André [SP], São Bernardo [SP] e São Gonçalo [RJ] tenham ocorrido mais de 3 mil mortes. Santos [SP] e Joinville [SC] apresentaram mais de 2 mil óbitos cada”, conta.

Descontinuidade de recursos e programas

O estudo identificou ainda a existência de uma correlação entre a transferência de verba para combate a desastres e para a pandemia. Nesse caso, como não havia dados históricos suficientes nos 45 municípios, a pesquisadora concentrou a análise na cidade de São Paulo. O estudo de caso na capital paulista também mostrou convergência entre os bairros mais afetados pela pandemia e aqueles com maior risco de desastre.

“Em um primeiro momento da pandemia, o governo federal ofereceu dinheiro para ajudar a questão das famílias e, de maneira mais reduzida, às pessoas que têm negócios. Isso ocorreu antes de toda a confusão para a compra das vacinas em 2020. Porém, em 2021, o orçamento para a saúde caiu abruptamente”, afirma Young.

De acordo com dados do Tesouro Nacional, o orçamento federal para gastos emergenciais com COVID-19 foi de US$ 115 bilhões em 2020. No ano seguinte foi reduzido para US$ 26 bilhões.

A pesquisadora ressalta que a descontinuidade de recursos observada na pandemia também tem sido o padrão no enfrentamento das mudanças climáticas ao longo dos últimos dez anos. “Quando ocorre o desastre ambiental, invariavelmente e de forma rápida ocorre a transferência de recursos para a emergência. Porém, passado o problema imediato, esse recurso é cortado e o plano de ação é descontinuado. Só que são problemas estruturais e que vão voltar com a próxima chuva, a próxima seca ou, no caso da COVID-19, a próxima onda ou epidemia”, diz.

O artigo From federal transfers and local investments to a potential convergence of COVID-19 and climate change: The case study of São Paulo city pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S221067072100723X#!.

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Fonte: FAPESP