Células-tronco: descobertas abrem novas perspectivas para as pesquisas na área

Capazes de originar diferentes tecidos do corpo humano, as células-tronco embrionárias (CTEs) passaram a representar, na virada do século, uma esperança de tratamento para diversas condições de saúde. Mas, à medida que as pesquisas avançaram, percebeu-se que entender e controlar o comportamento dessas células seria um desafio maior que o imaginado inicialmente.

Estudos mostraram que uma mesma população de CTEs pode ser bastante heterogênea e que o potencial de pluripotência, ou seja, de se diferenciar nos mais diversos tipos celulares, poderia variar entre as células oriundas de um mesmo embrião e ainda mais entre diferentes linhagens. Descobriu-se, posteriormente, que, na medida em que a diferenciação avança, se altera no interior das células-tronco o nível de determinados microRNAs – pequenas moléculas de RNA que não codificam proteínas, mas desempenham função regulatória em diversos processos intracelulares.

Ao investigar mais detalhadamente o papel de 31 desses microRNAS observados nas CTEs humanas, pesquisadores do Centro de Terapia Celular (CTC) de Ribeirão Preto identificaram vias de sinalização envolvidas tanto na manutenção da pluripotência como na indução do processo de diferenciação – descoberta que abre novas perspectivas para as pesquisas na área.

Resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram divulgados na revista Stem Cell Research & Therapy. O CTC é um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID-FAPESP) sediado na Universidade de São Paulo (USP).

“Com base nessas informações, podemos pensar no desenvolvimento de drogas para facilitar o cultivo de CTEs em laboratório e até mesmo para fazer com que essas células regridam ao estágio mais inicial de desenvolvimento, denominado naive, no qual a capacidade de originar qualquer tipo de tecido é maior”, disse Rodrigo Alexandre Panepucci, pesquisador da Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto e coordenador do trabalho.

Segundo Panepucci, de modo geral, as CTEs humanas usadas em pesquisas estão em um estágio de desenvolvimento conhecido como primed pluripotency, ainda não diferenciadas, mas com uma tendência de seguirem certos caminhos de diferenciação. São, portanto, menos versáteis do que as células-tronco embrionárias de camundongo, normalmente isoladas no estágio naive e, por isso, muito usadas como modelo de estudo.

“Há um grande interesse em trabalhar com o fenótipo naive, pois são células capazes de originar até mesmo gametas [óvulos e espermatozoides] – algo que as células primed já não podem fazer”, disse o pesquisador.

Análise em larga escala

Por apresentar uma sequência de nucleotídeos complementar, o microRNA consegue se ligar ao RNA mensageiro e fazer com que este seja degradado ou impedir sua tradução em proteína. Quando há um aumento na expressão de microRNAs na célula, portanto, significa que algum processo está sendo inibido. Identificar qual é o processo, porém, não é tarefa trivial.

“Um único microRNA pode ser capaz de se ligar a centenas ou milhares de diferentes RNAs mensageiros. Pode afetar vários alvos de uma via de sinalização e ter um efeito biológico amplo”, explicou Panepucci.

Estudar essas moléculas do ponto de vista funcional, portanto, requer ferramentas de bioinformática que possibilitem trabalhar com um grande volume de dados. O grupo do CTC adotou uma metodologia conhecida como High Content Screening (HCS, triagem de alto conteúdo), que permite analisar milhares de imagens diferentes e, assim, descobrir como cada microRNA regula o fenótipo das CTEs.

As células-tronco foram colocadas em placas contendo 96 pequenos poços de cultura. Em cada poço, foi introduzida uma molécula de microRNA sintético diferente. Após três ou quatro dias de cultivo, os pesquisadores avaliaram o efeito – seja na manutenção da pluripotência ou na indução da diferenciação.

“Usamos microscopia de fluorescência automatizada para obter milhares de imagens das células. Com base na análise desse material, estabelecemos um perfil multiparamétrico para determinar o estágio de pluripotência. Ou seja, entre centenas de parâmetros morfológicos observados nas imagens, selecionamos cerca de 10 que possibilitam classificar o estágio de diferenciação em que a célula-tronco embrionária se encontra”, explicou o pesquisador.

Além disso, o grupo mediu em cada poço o nível de duas proteínas consideradas marcadores de pluripotência – OCT4 e ciclina B1. Quanto maior é a expressão dessas moléculas, maior é o grau de pluripotência da célula.

Em seguida, os microRNAs que induziram efeitos similares nas células-tronco foram agrupados e hierarquizados por meio de uma técnica de análise conhecida como clusterização. Desse modo, foi possível organizar o grande volume de informações obtido com as análises e identificar a quais vias de sinalização cada grupo de microRNAs estava relacionado.

O artigo High-content screen in human pluripotent cells identifies miRNA-regulated pathways controlling pluripotency and differentiation, de Ildercílio Mota de Souza Lima, Josiane Lilian dos Santos Schiavinato, Sarah Blima Paulino Leite, Danuta Sastre, Hudson Lenormando de Oliveira Bezerra, Bruno Sangiorgi, Amanda Cristina Corveloni, Carolina Hassibe Thomé, Vitor Marcel Faça, Dimas Tadeu Covas, Marco Antônio Zago, Mauro Giacca, Miguel Mano e Rodrigo Alexandre Panepucci, pode ser lido em: https://stemcellres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13287-019-1318-6

Fonte: Texto originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui

Grupo avalia neuromodulação não invasiva para tratar obesidade

Estimulação transcraniana por corrente contínua pode reduzir ou aumentar o apetite dependendo do perfil genético do paciente

Uma das alternativas que têm sido testadas no tratamento da obesidade é a neuromodulação cerebral não invasiva por uma técnica conhecida como estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS, na sigla em inglês). Estudos feitos até o momento indicam que o método de fato contribui para reduzir o apetite, a ingestão alimentar e o peso corporal, mas apenas em parte dos voluntários.

Novos dados publicados por pesquisadores da USP na revista Appetite ajudam a entender o motivo de tamanha variabilidade na resposta a esse tratamento. “O perfil genético do paciente – particularmente as variações em um gene conhecido como COMT – parece ser um fator determinante para o resultado”, disse à Agência Fapesp Priscila Giacomo Fassini, primeira autora do artigo.

Durante seu pós-doutorado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Fassini conduziu – com apoio da Fapesp – um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, placebo-controlado para testar a eficácia da tDCS na redução do apetite e do peso. Nesse tipo de estudo, considerado padrão-ouro na avaliação de novas terapias, os voluntários são divididos aleatoriamente em dois grupos e nem mesmo os pesquisadores sabem antecipadamente quem de fato recebeu a intervenção ou apenas placebo. O trabalho foi supervisionado pela professora do Departamento de Clínica Médica Vivian Marques Miguel Suen.

A estimulação transcraniana por corrente contínua é feita por dois eletrodos (cátodo e ânodo) posicionados no couro cabeludo e ligados a um pequeno equipamento portátil capaz de gerar uma corrente galvânica que altera a atividade elétrica cerebral da área de interesse. No caso da obesidade, o objetivo é modular a excitabilidade dos neurônios localizados no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo.

“Usamos em nosso ensaio uma corrente de apenas 2 miliamperes – tão baixa que nem é percebida pelos pacientes. Os membros do grupo placebo passavam pelos mesmos procedimentos, porém, recebiam uma corrente não ativa”, contou a pesquisadora.

Partindo de uma base inicial com quase 9 mil voluntários, o grupo selecionou 38 mulheres, com idades entre 20 e 40 anos, para participar das quatro fases do ensaio clínico. Todas tinham índice de massa corporal (IMC) entre 30 e 35, considerado como obesidade grau 1. Foram selecionadas apenas mulheres com o objetivo de reduzir a variabilidade de resultados e, assim, aumentar o poder do estudo.

“Os critérios de inclusão foram bastante rigorosos. Excluímos usuários de medicamentos e portadores de doenças que poderiam influenciar nos resultados. Além disso, como a terceira fase do estudo envolvia internação hospitalar durante duas semanas, nem todos os interessados tinham disponibilidade para participar”, disse Fassini.

Ao todo, as voluntárias selecionadas receberam 17 sessões de 30 minutos de tDCS ao longo de um mês e tiveram o apetite e o peso monitorados durante seis meses. Segundo Fassini, pesquisas anteriores haviam investigado apenas os efeitos imediatos da estimulação transcraniana no apetite, com um número menor de sessões e sem um período de seguimento.

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Fonte: Jornal da USP

Bolsa de pós-doutorado no Centro de Estudo do Genoma Humano e de Células-Tronco

O Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e sediado na Universidade de São Paulo (USP), oferece uma oportunidade de pós-doutorado com bolsa da FAPESP. O prazo de inscrição se encerra no dia 9 de agosto de 2019.

O CEGH tem o objetivo principal de ampliar conhecimentos básicos sobre as doenças genéticas prevalentes na população brasileira e possibilitar o diagnóstico de doenças genéticas. A equipe do centro aborda aspectos da regulação da expressão gênica em distúrbios complexos, tais como autismo e várias doenças neurodegenerativas.

O bolsista participará de pesquisa em engenharia tecidual hepática usando técnicas de produção de organoides a partir de células-tronco humanas pluripotentes induzidas (hiPS).

Os candidatos devem ter doutorado em Ciências Biológicas, com ênfase em Genética, e experiência comprovada em engenharia tecidual, reprogramação e cultivo de hiPS. Também é necessário experiência comprovada em diferenciação de hiPS para hepatócitos, células endoteliais e mesenquimais, técnicas de bioimpressão 3D e principalmente em protocolos de produção de organoides hepáticos.

As inscrições podem ser feitas pelo e-mail wfalciano@ib.usp.br.

Mais informações sobre a vaga: www.fapesp.br/oportunidades/3020.

A oportunidade de pós-doutorado está aberta a brasileiros e estrangeiros. O selecionado receberá Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP no valor de R$ 7.373,10 mensais e Reserva Técnica equivalente a 15% do valor anual da bolsa para atender a despesas imprevistas e diretamente relacionadas à atividade de pesquisa.

Caso o bolsista de pós-doutorado resida em domicílio fora da cidade na qual se localiza a instituição-sede da pesquisa e precise se mudar, poderá ter direito a um auxílio-instalação. Mais informações sobre a Bolsa de Pós-Doutorado da FAPESP estão disponíveis em www.fapesp.br/bolsas/pd.

Fonte: Agência FAPESP

Parceria entre USP e Pasteur ajudará Brasil a se preparar contra epidemias

Plataforma científica reúne 17 laboratórios para investigar danos neurológicos causados por vírus, como zika e febre amarela

Arte sobre fotos/USP Imagens

Um aumento inesperado do número de crianças nascidas com microcefalia e nenhuma informação sobre a causa. Esse era o cenário do Brasil entre 2014 e 2015 quando o Ministério da Saúde registrou um surto da anomalia. Esforço de cientistas descobriu a causa: vírus zika. O combate a epidemias e a identificação antecipada de vírus e parasitas deverão ficar mais ágeis no País com a inauguração da Plataforma Científica Pasteur-USP, em São Paulo, nesta quinta-feira, 4 de julho.

A plataforma é um conjunto de 17 laboratórios voltados à pesquisa para estudo de agentes patogênicos (organismos capazes de causar doença infecciosa em seu hospedeiro) emergentes, cujas infecções podem provocar danos no sistema nervoso central, como os vírus da zika, dengue, febre amarela e influenza, além de protozoários como os tripanossomas causadores da doença do sono.

“A ideia principal é uma estratégia científica voltada, principalmente, à descoberta de soluções para agentes que causam epidemia, como o vírus zika, dengue, mayaro”, explica a pesquisadora Paola Minoprio, diretora de pesquisa do Instituto Pasteur e coordenadora da plataforma, junto com o professor Luiz Carlos Ferreira, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.São quatro laboratórios de biossegurança nível 3 (NB3) – em uma escala que vai de 1 a 4, equiparáveis a parâmetros internacionais. O nível alto de segurança se dá pelo fato de os laboratórios serem utilizados para estudar patógenos de alto risco individual e moderado para a comunidade, ou seja, os microrganismos transmitem doenças potencialmente letais, porém possuem medidas de prevenção e tratamento conhecidas.

As pesquisas permitirão melhorar a preparação ao combate de epidemias, pois será possível prever antecipadamente o aparecimento delas. “Se conseguimos identificar vírus que estão circulando antecipadamente à epidemia, podemos agir, buscar antígenos e tentar nos preparar, termos reações mais rápidas a emergências virais”, segundo Paola.

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Fonte: Jornal da USP

 

Pesquisadores da FMUSP validam metodologia para detecção do Alzheimer

Maria Fernanda Ziegler  |  Agência FAPESP – Pesquisadores validaram no Brasil uma metodologia capaz de mapear o acúmulo de peptídeo beta-amiloide no cérebro humano por meio de tomografia por emissão de pósitrons (PET, na sigla em inglês). Em pacientes com Alzheimer, esse peptídeo se agrupa de forma anômala e promove a deposição de placas no córtex cerebral.

A metodologia, aliada a outras análises, constitui uma ferramenta importante para diferenciar casos de doença de Alzheimer de outras demências degenerativas. Embora já tenha sido testada em voluntários, ainda não está liberada para uso na rotina clínica.

No estudo, resultado de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, a equipe de pesquisadores validou a metodologia de produção de um radiofármaco.

Denominado 11C-PIB, o radiofármaco atua como um marcador do acúmulo de peptídeo beta-amiloide no cérebro humano. Ele foi desenvolvido na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, é um produto sem patente e com comercialização limitada, sobretudo por ter meia-vida física muito curta – faz uso de um radioisótopo (carbono-11) para marcar a molécula.

“Durante o projeto de pesquisa, foi possível produzir o radiofármaco no Brasil, visto que já era utilizado em grandes centros de pesquisa fora do país. Além de conseguirmos validar a metodologia, fizemos testes pré-clínicos em animais e, na sequência, a metodologia foi aplicada em pacientes voluntários”, disse Geraldo Busatto Filho, coordenador do Laboratório de Neuroimagem em Psiquiatria (LIM21) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coordenador do temático.

A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência neurodegenerativa em idosos, sendo responsável por cerca de 70% dos casos. Seu diagnóstico, no entanto, ainda é complexo, por vezes tardio e feito por exclusão de outras causas de demência. Isso porque os processos neurodegenerativos que caracterizam a doença se iniciam anos antes de surgirem os primeiros sintomas, como perda de memória e dificuldade para acompanhar conversas mais complexas ou para resolver problemas.

De acordo com os pesquisadores, a validação de marcadores – como o 11C-PIB – tem o potencial de viabilizar o diagnóstico precoce e mais preciso, além de dar uma nova perspectiva para a doença, permitindo que no futuro novos tratamentos sejam testados.

Vale mais do que mil palavras

Depois de validar no Brasil a metodologia de detecção de placas amiloide no cérebro, os pesquisadores usaram um software para construir “mapas cerebrais estatísticos”. Os gráficos mostram a comparação das médias de 17 voluntários com suspeita de Alzheimer com as de outros 19 idosos saudáveis (grupo controle). Os resultados e a validação da metodologia foram descritos em artigo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria – RBP.

“Pelo mapa estatístico, é possível identificar facilmente o acúmulo de placas amiloides no grupo de pacientes com doença de Alzheimer, quando comparado ao grupo de voluntários saudáveis. As regiões do córtex estão claramente diferentes. Os mapas estatísticos são daquelas imagens que falam mais do que mil palavras”, disse Busatto.

O Projeto Temático foi realizado na FM-USP e envolveu, além do LIM21, os grupos do Centro de Medicina Nuclear, chefiado por Carlos Alberto Buchpiguel, o grupo da Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da FM-USP, capitaneado por Ricardo Nitrini, e o grupo do Ambulatório de Psiquiatria Geriátrica do Laboratório de Neurociências (LIM27) do Instituto de Psiquiatria da FMUSP, liderado por Orestes Forlenz.

Tudo cronometrado

Assim como a produção do radiofármaco, realizar o exame em pacientes voluntários não é das tarefas mais fáceis. Isso porque o produto é marcado com isótopo radioativo (carbono 11), que tem meia-vida física de apenas 20 minutos. Quando o isótopo decai, emite dois raios gama e forma a imagem das placas amiloide no equipamento de tomografia por emissão de pósitron.

No estudo com voluntários, o equipamento de tomografia ficou próximo (mesmo prédio) ao cíclotron – que produz o isótopo de carbono – e da unidade produtora do PIB, que é produzido para cada paciente de modo personalizado.

“O radiofármaco é injetado na veia de pacientes e funciona como um marcador, ligando-se temporariamente à proteína amiloide agrupada no córtex cerebral até que desapareça por completo. O registro da emissão de raios gama usando equipamento de tomografia PET permite a construção da imagem na qual as placas amiloides do cérebro daquele paciente podem ser vistas de forma tridimensional. Como se vê, é preciso ter toda uma logística para que o teste seja feito antes de o radiofármaco desaparecer”, disse Buchpiguel.

Além do estudo já publicado, os pesquisadores estão comparando também o resultado do exame realizado em 120 indivíduos divididos em três grupos: pacientes diagnosticados com doença de Alzheimer, idosos saudáveis e idosos com comprometimento cognitivo leve.

Múltiplos exames

Vale lembrar que o mapeamento cerebral pelo radiofármaco 11C-PIB não pode ser considerado, de forma isolada, um diagnóstico da doença de Alzheimer, nem um indicador de gravidade. Ele serve para diferenciar casos de Alzheimer de outras demências.

“Se um paciente saudável fizer o exame e der positivo (indicando que existem placas amiloides no cérebro), ele não vai sair com o diagnóstico de Alzheimer. Ele precisa ter os sintomas avaliados em associação com a imagem”, disse Daniele de Paula Faria, pesquisadora do Laboratório de Medicina Nuclear (LIM 43) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que também participou da coordenação do estudo.

De acordo com Busatto, a validação do exame no Brasil coincide com um momento-chave dessa área da neurociência no cenário mundial e coloca o grupo de pesquisadores da FM-USP em posição vantajosa para realizar estudos sobre a doença de Alzheimer.

“Em 2018, foi implementada pelo National Institute of Aging e pela Alzheimer’s Association, nos Estados Unidos, uma atualização das diretrizes para fins de pesquisa que visam diagnosticar diferentes estágios da doença de Alzheimer. A doença deixa de ser diagnosticada apenas com base no conjunto de sintomas e sinais de demência e passa a ser definida também pela detecção das alterações patológicas cerebrais mais características do quadro, seja por meio de exames do cérebro dos pacientes após a morte ou por novos biomarcadores avaliados em vida”, disse.

Busatto afirma que o exame de PET para avaliação de placas amiloides no córtex cerebral é um desses biomarcadores e, nesse novo cenário, ele fica consolidado como um dos instrumentos de pesquisa mais importantes para definir se uma pessoa tem ou não alterações patológicas de Alzheimer. “Em países com acesso à tecnologia, o exame tem sido associado aos critérios clínicos e neuropsicológicos usados para a identificação de sintomas demenciais e déficits cognitivos. A combinação de testes reforça a hipótese diagnóstica de doença de Alzheimer e descarta outras causas de demência”, disse.

De acordo com Busatto, em diagnósticos baseados apenas em sintomas, erra-se em pelo menos 30% dos casos. “Os estudos, no entanto, estão mostrando que, se disponibilizarmos esse tipo de exame numa clínica de memória, uma parte dos pacientes vai ter o seu diagnóstico mudado. É algo que pode ser muito importante em termos de saúde pública no futuro”, disse Busatto.

Testes conjuntos

No Projeto Temático, o grupo de pesquisadores também trabalhou com exames de PET usando outro biomarcador, o fluorodesoxiglucose (FDG). Esse radiofármaco, marcado com o isótopo flúor-18 (18F-FDG), serve para o mapeamento do metabolismo de glicose no cérebro. Diferente do usado para a placa amiloide, ele funciona como marcador da atividade neural.

Aprovado há muitos anos, o exame também reforça o diagnóstico da doença de Alzheimer. “Ele consegue verificar a evolução e a gravidade do comprometimento cerebral na doença de Alzheimer. Também auxilia na diferenciação entre a doença de Alzheimer e outras formas de demência”, disse Buchpiguel.

De acordo com o pesquisador, um sinal típico do comprometimento neuronal da doença de Alzheimer consiste na perda de capacidade das células cerebrais de metabolizar glicose, como reflexo da diminuição da sua atividade funcional. “Com o 18F-FDG, é possível obter imagens que identificam as áreas do cérebro onde houve alteração de captação e de concentração do 18F-FDG, ou seja, locais nos quais as células neurais pararam de funcionar, ou diminuíram o funcionamento, apesar de estarem presentes”, disse Buchpiguel.

O exame com 11C-PIB para mapeamento de placas amiloides detecta alterações neuropatológicas consideradas características da doença de Alzheimer e, de acordo com os pesquisadores, pode possibilitar a detecção mais precoce da deposição destas placas.

Já o exame metabólico (PET 18F-FDG) é um marcador das alterações de neurodegeneração que geralmente acompanham o início das dificuldades cognitivas. Quanto mais os sintomas progridem, maior é o déficit de metabolismo da glicose nas regiões cerebrais comprometidas pela doença de Alzheimer.

No estudo realizado no Projeto Temático, cada indivíduo pesquisado fez exames de ressonância magnética, além dos exames de PET para mapeamento de placas amiloides (PET 11C-PIB) e 18F-FDG. Com isso, o grupo criou um dos primeiros e mais amplos bancos de dados da América Latina de idosos avaliados com PIB-PET e outros marcadores de neuroimagem recrutados em um mesmo polo de pesquisa.

“Além das avaliações clínicas e cognitivas, o banco de dados tem o que chamamos de protocolo de neuroimagem multimodal. Isso porque realizamos, nos três grupos, exames de ressonância magnética além das avaliações de PET. Conseguimos uma gama de dados que nos permite fazer várias comparações entre as diferentes informações sobre a estrutura e o funcionamento cerebral. Teremos bastante trabalho pela frente”, disse Busatto.

O chamado protocolo multimodal de ressonância magnética, executado a partir da parceria com o Laboratório de Neurorradiologia (LIM44) do Hospital das Clínicas da FM-USP, vai permitir a avaliação do volume das diferentes regiões cerebrais, buscar pequenas lesões vasculares, observar a integridade dos feixes de substância branca e também a conectividade funcional (a forma como o cérebro é organizado no seu funcionamento de grandes redes).

“Estamos fazendo correlações entre marcadores, dados clínicos e imagens cerebrais nos mesmos pacientes da pesquisa. Esse estudo de marcadores complementares entre si pode nos ajudar a saber até que ponto os pacientes com comprometimento cognitivo leve são potenciais conversores para a doença de Alzheimer, além de trazer informações sobre as diferentes fases de evolução da doença”, disse Buchpiguel.
Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

 

Vaga de pós-doutorado no ICB-USP

Uma vaga de pós-doutorado com bolsa da FAPESP foi aberta pelo Projeto Temático “Identificação e caracterização de mecanismos envolvidos no controle de massa e regeneração do músculo estriado esquelético“. O prazo de inscrição termina em 12 de abril de 2019.

O bolsista participará de pesquisa no Laboratório de Biologia Celular e Molecular do Músculo Estriado, no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). O projeto tem como objetivo a compreensão de mecanismos celulares e moleculares que controlam a massa e regeneração do músculo estriado esquelético.

É desejável que o candidato tenha o doutorado nas áreas de biologia celular e molecular, preferencialmente com foco em músculo estriado esquelético.

É necessário experiência em cultura celular primária ou linhagens de células miogênicas; transfecção de células, clonagem e construção de vetores para superexpressão de shRNAs e microRNAs; construção de vetores AAV para entrega gênica específica no músculo esquelético; método de superexpressão de microRNAs in vivo e in vitro; em western blotting; microscopia de fluorescência e técnicas de histologia do músculo esquelético; e em PCR em tempo real para análise de genes e microRNAs.

Os interessados pela vaga devem enviar carta de interesse, súmula curricular (seguindo normas FAPESP) e carta de recomendação para o e-mail do coordenador do projeto, o professor Anselmo Sigari Moriscot (moriscot@usp.br).

Fonte: FAPESP

FAPESP lança política para acesso aberto

OpenAccesslogo cópia

A FAPESP lançou sua política para acesso aberto a publicações científicas. Autores de trabalhos científicos que resultem, total ou parcialmente, de projetos e bolsas financiados pela Fundação deverão divulgá-los em periódicos que permitam o arquivamento de uma cópia dos artigos em um repositório público, onde possa ser consultado na web por qualquer pessoa. O depósito da cópia deverá ser feito assim que o paper for aprovado para publicação ou em prazos compatíveis com as restrições de cada revista – algumas delas impõem períodos de embargo entre seis meses e um ano. Caso o paper seja publicado por alguma das 293 revistas da biblioteca virtual SciELO (Scientific Electronic Library Online), não haverá a necessidade de depositar em repositórios, pois esses periódicos garantem a divulgação instantânea do conteúdo na web.

A política foi detalhada em uma portaria do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP assinada no dia 21 de fevereiro e entrará em vigor na próxima semana. A íntegra está disponível on-line.

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Fonte: FAPESP