Projeto cria sistema para monitorar a circulação de variantes do SARS-CoV-2 na cidade de São Paulo

Karina Toledo | Agência FAPESP – Um sistema para monitorar a circulação de variantes do novo coronavírus na cidade de São Paulo está sendo implementado por meio de uma parceria entre a prefeitura local, a rede de laboratórios Dasa e a FAPESP.

A meta é analisar semanalmente 384 amostras de secreção nasofaríngea coletadas de moradores de todas as regiões da capital atendidos na rede pública de saúde e que testaram positivo para o SARS-CoV-2. No Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP), o material será submetido a um teste de RT-PCR capaz de identificar a presença de cinco cepas virais: Alfa (B.1.1.7, identificada no Reino Unido), Beta (B.1.351 ou sul-africana), Delta (B.1.617, da Índia), Gama (P.1, de Manaus) e Zeta (P.2, do Rio de Janeiro). Caso o resultado seja negativo para todas, a amostra será sequenciada para que seja possível identificar a linhagem presente.

Além disso, todos os meses, 25% das amostras que passaram pelo teste de RT-PCR serão selecionadas aleatoriamente para sequenciamento completo do genoma viral – trabalho que será feito pela equipe da Dasa.

“Já recebemos amostras coletadas no fim de maio e início de junho e começamos a análise. Também pretendemos estudar, retrospectivamente, material coletado desde janeiro deste ano. Um dos objetivos é tentar descobrir quando e por onde a variante P.1 entrou na capital e como ela se disseminou. E também se a cepa indiana já circula pela cidade”, conta a professora da USP Ester Sabino, que coordena a iniciativa ao lado de Carlos Fortaleza, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu.

As amostras para análise serão selecionadas de forma proporcional à população de cada região da cidade (norte, sul, leste, oeste, centro e sudeste), sem viés de gravidade. As equipes da prefeitura também fornecerão aos pesquisadores algumas informações sobre os pacientes, como sexo, idade, local de moradia, se já foi ou não imunizado, data da coleta da secreção nasofaríngea e de início dos sintomas.

“Como estamos trabalhando com dados amostrais, é preciso que eles sejam representativos da população e que estejam bem distribuídos no tempo e no espaço. Ou seja, os dados devem ser uma maquete do que está acontecendo no município. A ideia é que possamos olhar para essa miniatura perfeita e saber como está a distribuição de variantes no momento”, explica Fortaleza, que foi responsável pelo desenho do projeto.

Por meio de técnicas estatísticas – com base no tamanho da população paulistana e admitindo uma margem de erro de até 5% –, o grupo calculou que seria necessário analisar 384 amostras por semana para conseguir mapear a circulação de variantes para as quais não se sabe, a priori, a proporção em que estão presentes.

De acordo com Fortaleza, o objetivo do projeto é implementar um sistema de vigilância genômica sensível (que não deixe passar despercebida nenhuma variante em circulação), representativo (capaz de mostrar a proporção das variantes de forma semelhante à distribuição real), oportuno (capaz de produzir dados a tempo de medidas de controle serem adotadas) e flexível (adaptável a todas as situações) para embasar ações de combate à doença.

Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, conta que a iniciativa partiu da Prefeitura de São Paulo e foi “catalisada” pela FAPESP. “Buscamos transformar o que deveria ser um trabalho de rotina da prefeitura em um trabalho dentro das linhas apoiadas pela Fundação. Há neste projeto um elemento indutor importante e com ele pretendemos sugerir novos desenhos organizacionais, em que a academia, o governo e o setor privado interajam de forma rápida e efetiva”, conta.

Benefícios

Como destaca José Eduardo Levi, pesquisador do IMT-USP e da rede de laboratórios Dasa, a vigilância genômica representa um dos três pilares principais de combate à COVID-19, sendo os outros dois a vacinação e as medidas de testagem e isolamento social.

“O vírus está evoluindo bem na nossa frente e, com essa estratégia, poderemos identificar precocemente variantes que poderão gerar uma nova onda e intervir o mais rapidamente possível”, afirma.

Com base na sequência genômica, explica Levi, é possível inferir se uma nova cepa eventualmente detectada pode ser considerada uma “variante de preocupação” (VOC, na sigla em inglês). “Caso seja localizado em um bairro um cluster de amostras que sugiram preocupação, será possível, por exemplo, distribuir máscaras e reforçar medidas de isolamento e de vacinação de forma direcionada. Outro exemplo: se começarmos a observar em uma região casos graves em indivíduos vacinados, poderemos trocar o tipo de imunizante no local”, sugere.

Segundo Sabino, as análises realizadas no âmbito do projeto vão ajudar a entender a dinâmica de espalhamento de novas variantes em São Paulo e isso pode levar à identificação de hubs de disseminação do vírus que poderão ser alvos de intervenções do poder público.

“O fato de a FAPESP se colocar à disposição da política pública, algo que já vinha acontecendo por meio de programas como o PPSUS [Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde], representa algo muito importante: a ciência em benefício da vida. Essa junção de saberes – epidemiológico, virológico e de biologia molecular – com o trabalho prático dos técnicos da prefeitura permite construir pontes e, a partir delas, coisas muito importantes para a saúde pública podem surgir”, avalia Fortaleza.
 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Consequências duradouras da COVID-19

Quem sobreviveu ao Sars-CoV-2, mesmo sem ter sido hospitalizado, pode sofrer os efeitos da infecção durante meses após os sintomas mais intensos (Nature, 22 de abril). Com base em registros médicos de 73.435 pessoas nos Estados Unidos que tiveram Covid-19 e não precisaram ser internadas, pesquisadores do Saint Louis Health Care System e da Universidade Washington em Saint Louis verificaram que, nos primeiros seis meses após o diagnóstico, quem teve uma infecção amena tinha um risco 60% maior de morrer e 20% maior de precisar de cuidados médicos do que os indivíduos que não contraíram o vírus. A probabilidade de óbito dos pacientes de Covid-19 também era 50% maior que dos sobreviventes de gripe. Comparativamente, é maior o risco de problemas nos sistemas respiratório, nervoso e digestivo, além de distúrbios metabólicos, mal-estar, fadiga, dores musculares e anemia. O consumo de medicamentos contra dor, depressão, ansiedade e pressão arterial alta também aumentou no primeiro grupo. Diabetes, doença renal e problemas cardíacos que acompanhavam a Covid-19 podem se tornar crônicos, exigindo tratamento também nos anos seguintes.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Prof. Paulo Saldiva, da FMUSP, conversa sobre a pandemia na revista Pesquisa FAPESP

Em 2016 na Faculdade de Medicina da USP: o espaço vazio, agora por restrições da pandemia, lhe causa tristeza

Quando a pandemia chegou, todos os meus planos mudaram. Depois de dirigir o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo [IEA-USP] por quatro anos, eu planejava tirar um período sabático, ou mudar minha linha de pesquisa e começar algo novo. Mas uma das coisas que mantive foi a capacidade de fazer autopsias, e foi como se o destino me dissesse: “Você precisa fazer isso”. As autopsias tradicionais de Covid-19 ficaram proibidas em todo o Brasil, pelo alto risco de contágio e por não haver salas com proteção de nível 3 no país. Por isso, fizemos a proposta de testar as minimamente invasivas. Nessa técnica, não é preciso abrir os corpos, retiramos amostras de tecidos usando uma agulha muito fina. As autopsias são essenciais para ajudar a entender os mecanismos de funcionamento da doença.

No começo, meu grupo de pesquisa foi contra porque, além de mais velho, sou asmático. Mas eu queria muito contribuir e tive o apoio da minha família. Como nos primeiros meses não tínhamos certeza da segurança do procedimento em casos de Covid-19, me mantive isolado até dentro de casa. Meus dois filhos já não moram mais conosco, então dormia em quarto separado da minha mulher e usava outro banheiro. Montamos um sistema muito seguro para mim e para ela, eu entrava pela porta de serviço, tirava toda a roupa, já deixava na máquina de lavar e ia tomar banho. Por sorte aguentamos bem, ficamos assim por uns três meses até ver que era seguro. Embora na sala de autopsias o ambiente seja muito contaminado, inclusive o ar, ninguém ficou doente em todo esse período. Usamos boa proteção e nosso sistema se mostrou eficiente.

Nas autopsias, somos eu e a radiologista Renata Monteiro, doutoranda da Faculdade de Medicina da USP que trabalha com ultrassom post mortem. Só nós dominávamos a técnica no Brasil. Temos ainda o apoio de um técnico, o Jair Teodoro. Até agora, nós três fizemos cerca de 180 autopsias, desde março de 2020. Nem todas são de Covid-19 porque, às vezes, a doença é descartada depois da autopsia. Além disso, autopsias minimamente invasivas de outras doenças raras também passaram a ser pedidas pelo HC [Hospital das Clínicas].

Antes da pandemia, já falávamos da importância da autopsia minimamente invasiva, algo que a gente estudou em um projeto anterior, com apoio da FAPESP. Basicamente, modifiquei uma técnica que já existia. Antigamente, quando ocorriam as doenças endêmicas, como a malária, a esquistossomose ou o calazar [esquistossomose visceral], existia um serviço no Ministério da Saúde que usava uma agulha grande para fazer a retirada post mortem de fragmentos de fígado das pessoas pelo interior do Brasil. Isso funcionou até 1963, mais ou menos. Nosso grupo introduziu o uso do ultrassom. Ele serve como guia para localizarmos o melhor local para retirar a amostra de tecido. Com a chegada da pandemia, comecei praticamente do zero, estudando como utilizar a técnica com a doença. Passei a ser uma pessoa com foco em Covid-19, em vez de alguém concentrado na parte ambiental e nos determinantes sociais das doenças.

Durante esse tempo, tenho trabalhado aos sábados e domingos, quando é preciso. Já não temos a necessidade de estudar tanto a doença do seu ponto de vista geral. Mas, quando aparece morte de gestantes, crianças, jovens ou pessoas infectadas com a variante P.1, que surgiu em Manaus, há interesse para o entendimento da doença.

Ajudamos a esclarecer o mecanismo de morte das crianças que tinham Covid-19 e sofreram com a síndrome inflamatória sistêmica pediátrica. Geralmente a doença age de forma diferente nelas e nos jovens. O comprometimento pulmonar não é tão intenso como nos adultos, mas percebemos fortes alterações cardíacas. O sistema imune das crianças e dos jovens monta uma resposta inflamatória tão exuberante que, no afã de matar o vírus, também destrói outros tecidos. Isso já foi visto na febre amarela. O que acontece é que crianças infartam. Imagine, uma criança de 11 anos ter um infarto…

Há algumas semanas vimos uma menina cheia de áreas de microinfartos. Em parte das nossas pesquisas, com base nos dados dessas autopsias, indicamos que talvez o tratamento das crianças precise ser diferente daquele dos adultos. Descrever esse mecanismo foi uma grande contribuição do nosso grupo de pesquisa. Além disso, estamos analisando as complicações tardias, de gente que tem alta e morre. Ou que estava bem, já na enfermaria, e morre rapidamente, geralmente por eventos trombóticos. Também temos ajudado a ver as complicações da ventilação mecânica de longo prazo.

Temos um artigo já aprovado no qual mostramos como esse modelo de autopsia minimamente invasiva pode ser usado em pandemias por agentes de alta contagiosidade. Nosso grupo de pesquisa produziu 19 artigos científicos até agora, somando os publicados e já aceitos. A USP é a instituição que tem mais publicações científicas sobre autopsias de Covid-19 no mundo. Acredito que isso ocorreu porque nosso hospital tinha muitos pacientes, usamos uma técnica que permite fazer o procedimento com segurança e as famílias dessas pessoas foram generosas. Explicamos que, além de ser pouco invasiva, a autopsia pode levar a descobertas que podem salvar outras vidas.

A pandemia paralisou totalmente um projeto, apoiado pela FAPESP, que pretendia analisar a exposição de crianças à poluição do ar em creches de São Paulo. Pretendemos instalar sensores de poluição nas instituições e nas mochilas de 300 crianças para comparar os níveis de poluentes nas creches e em suas casas. Queremos ver o tamanho do impacto na saúde infantil e o que é preciso fazer para melhorar. Estamos esperando as aulas voltarem com regularidade para retomar.

Além das autopsias, continuo com as aulas – a distância. Trabalho a discussão de casos clínicos com os alunos, unindo o conteúdo básico ao aplicado. Sinto muita falta dos encontros presenciais. Se eu encontrar na rua algum aluno das duas turmas que ensino, não reconhecerei. É um pessoal com quem não pude sentar junto no refeitório para comer e conversar, isso é muito difícil para mim.

Acho que poucas vezes trabalhei tanto quanto agora. Dei várias entrevistas para a mídia, faço participações no jornal da TV Cultura e tenho uma coluna na Rádio USP. Agora fui convidado para ser colunista do jornal Estadão também. Vou escrever sobre doenças, ambiente e como é possível mudar um pouco essa realidade.

Tenho dormido muito pouco, umas quatro ou cinco horas por dia. Para distrair, gosto de andar de bicicleta. Há anos pedalo para o trabalho. Às vezes, saio da faculdade na avenida Doutor Arnaldo e dou uma girada pela cidade antes de chegar em casa. Desço até o Pacaembu, subo a Consolação, passo pelo centro. Vou observando a cidade e as pessoas. Tenho visto meus dois filhos: assistimos futebol juntos e nos falamos por videoconferência. Também escrevo bastante, é uma forma de ordenar minhas ansiedades, minhas desesperanças e às vezes algumas esperanças. Coloco meus sentimentos nas crônicas que publico no Facebook, com fotos que faço da cidade. Toco gaita. E converso com meus dois cachorros, saio para passear. Costumamos fazer o último passeio do dia por volta da meia-noite e aproveito para pôr as ideias em ordem.

É um trabalho muito difícil. Pessoalmente não é bom, tem horas que você fica desesperançado. As autopsias de crianças e jovens são ainda mais doloridas. Tenho o rosto dessas crianças na mente. Duas enfermeiras entrevistam as famílias dos mortos e ficamos sabendo de suas histórias, de como foram parar ali. A menina que mencionei, por exemplo, ficou três dias no pronto-socorro de um hospital na periferia de São Paulo esperando por uma vaga. Quando foi trazida para o HC, já estava muito mal.

E aí você começa a ver adoecimentos e mortes invisíveis, de pessoas que fizeram a cidade funcionar. Isso não aparece no jornal. Damos muito destaque aos profissionais de saúde, merecidamente, mas tem também um monte de gente que entregou comida, dirigiu carro de aplicativo e transporte coletivo, trabalhou no comércio essencial e adoeceu porque não tinha escolha, precisava trabalhar. Não só quem vai à balada em Maresias, no litoral de São Paulo, ou para a rave no Leblon, no Rio de Janeiro, se contagia por falta de isolamento social; é gente que tem que ralar para se manter. Cada pessoa é uma crônica, uma história que desvendamos tanto no relato das famílias quanto em seus corpos. É como se construíssemos um observatório dessa população geralmente invisível.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

FAPESP, MCTI e CGI.br anunciam criação de 6 Centros de Pesquisa em Inteligência Artificial, com foco em saúde, agricultura, indústria e cidades inteligentes

FAPESP, MCTI e CGI.br anunciam a criação de seis Centros de Pesquisa em Inteligência Artificial

Agência FAPESP – A FAPESP, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o CGI.br – Comitê Gestor da Internet no Brasil – anunciaram no dia 04/05 os resultados da chamada de propostas para a constituição de Centros de Pesquisas Aplicadas (CPAs) em Inteligência Artificial com foco nas áreas de saúde, agricultura, indústria e cidades inteligentes.

A FAPESP, o MCTI e o CGI.Br disponibilizarão R$ 1 milhão por ano para cada um dos novos centros por um período de até dez anos. Valor idêntico será aportado pelas empresas parceiras, totalizando R$ 20 milhões por Centro.

Os resultados dos seis centros aprovados foram anunciados em evento on-line organizado pelo MCTI. “Temos sonhado com a inteligência artificial no país e não podemos perder o trem da história. Confio na ciência e nos nossos pesquisadores para criar novas soluções”, disse o ministro Marcos Pontes. “Logo lançaremos novo edital para selecionar mais dois CPAs”, adiantou. O vídeo de lançamento está disponível no canal do MCTI no YouTube.

“O que faz o mundo se mover é a ciência, a pesquisa e a inovação. Não é a economia, como alguns acreditam, desavisadamente”, afirmou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP. Ele lembrou o papel estratégico do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) e da FAPESP no “período heroico” da comunicação digital em rede no Brasil, na década de 1980, para prever que a pesquisa em colaboração nas áreas de agricultura, saúde, inteligência artificial, indústria 4.0 e robótica ajudarão a recuperação do país no pós-pandemia. “Convido o MCTI para renovar o que estamos anunciando hoje.”

Para Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação, a inteligência artificial agrega valor e gera novos negócios em setores diversos da economia e cria demandas por recursos humanos talentosos. “Os CPAs serão também hub para a formação de jovens talentosos que certamente terão um futuro brilhante.”

Márcio Nobre Mignon, coordenador do CGI.br, explicou que os recursos para o financiamento dos projetos têm origem na arrecadação de recursos remanescentes do período em que a FAPESP geriu as atividades de registro de domínio de endereços IP no país, entre 1998 e dezembro de 2005, quando então essa tarefa foi assumida pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). “Agradeço à FAPESP, dada a qualidade e o volume de projetos que se apresentaram no edital.”

O número de projetos apresentados à chamada foi “superior às expectativas”, sublinhou Paulo Alvim, Secretário de Empreendedorismo e Inovação do MCTI.

Luiz Eugênio Mello, diretor científico da FAPESP, informou que foram submetidas 19 propostas à chamada, encerrada em julho de 2020. “A avaliação ocorreu entre outubro do mesmo ano e março de 2021. A análise envolveu mais de 80 pareceres de assessores nacionais, internacionais e das coordenações da FAPESP. Ao final, o comitê gestor recomendou a aprovação de seis propostas – ante as quatro previstas –, considerando a qualidade excepcional dos projetos”, afirmou, antes de anunciar os resultados

CPAs em Inteligência Artificial selecionados

Os CPAs em Inteligência Artificial seguem o modelo adotado no programa Centros de Pesquisa em Engenharia/Centro de Pesquisa Aplicada (CPE/CPA) da FAPESP. Os seis novos Centros se dedicarão ao desenvolvimento de pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação, aplicadas e orientadas à resolução de problemas que possam ser resolvidos por meio de inteligência artificial.

O CPA Inteligência Artificial Recriando Ambientes (IARA), que terá como pesquisador principal André Ponce de Leon Carvalho e sede no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP). em São Carlos, vai operar em rede com pesquisadores de todas as regiões do país no estudo de cinco aspectos de cidades inteligentes: cibersegurança, educação, infraestrutura, meio ambiente e saúde.

O Centro de Inovação em Inteligência Artificial para a Saúde (CIIA-Saúde), com sede no Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), terá como pesquisador responsável Virgílio de Almeida. O CPA será constituído por 130 pesquisadores na investigação de prevenção e qualidade de vida, diagnóstico, prognóstico e rastreamento, medicina terapêutica, gestão de saúde, epidemias e desastres.

O Brazilian Institute of Data Science (BIOS) terá João Romano como pesquisador principal e sede na Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação da Universidade Estadual de Campinas (FEEC-Unicamp). Seu foco será nas áreas de diagnósticos médicos voltados à saúde da mulher e agricultura de precisão, otimização do uso de recursos agrícolas, entre outras.

O Centro de Excelência em Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial para a Indústria, no Senai/Cimatec, na Bahia, terá como pesquisador responsável Antônio José da Silva Neto. O CPA implementará uma plataforma digital aberta de ciência de dados e inteligência artificial para a indústria 4.0.

O Centro de Pesquisa Aplicada em Inteligência Artificial para a Evolução das Indústrias para o Padrão 4.0, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, coordenado por Jefferson de Oliveira Gomes, terá foco em monitoramento e controle em tempo real, digital twin, interoperabilidade e integração da cadeia, sistemas autônomos, robótica e máquinas-ferramentas, entre outros.

O Centro de Referência em Inteligência Artificial (Cereia), na Universidade Federal do Ceará (UFC), será coordenado por José Andrade Júnior e terá como parceiros três Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs): PUC-Rio, Universidade Federal do Piauí e Universidade de Fortaleza. O objetivo é desenvolver projetos por meio de aplicação de internet das coisas (IoT), big data e transformação digital, entre outras, voltadas às áreas de prevenção, diagnóstico e terapêutica de baixo custo.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

O vírus em evolução

Em um ano de pandemia, oficialmente decretada em 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o mundo assistiu, atônito, ao adoecimento de 122 milhões de pessoas e à morte de ao menos 2,7 milhões – um terço delas ocorridas em apenas três países: Estados Unidos, Brasil e México. Também pôde acompanhar, em tempo quase real e com um nível de detalhe talvez nunca visto antes, a evolução do patógeno que pôs de joelhos o sistema de saúde e afetou profundamente a economia de muitas nações. Desde que foi identificado no final de 2019 na cidade de Wuhan, na região central da China, o vírus Sars-CoV-2 sofreu uma série de transformações enquanto se espalhava pelo planeta. À medida que infectava mais e mais pessoas e se replicava, acumulou pequenas modificações em seu material genético até que, em diferentes locais e momentos, já estava tão diferente do original que passou a ser considerado uma nova variante, que, ao prosperar e se disseminar, começa a ser chamada de linhagem – a linhagem agrupa exemplares com a mesma origem e muito semelhantes entre si, mas que podem possuir pequenas diferenças.

Em 15 de março deste ano, a Nextstrain, uma ferramenta de visualização de genomas virais, listava nada menos do que 359 linhagens do novo coronavírus catalogadas desde dezembro de 2019 pelo sistema de classificação Pangolin. Entre tantas, três delas – uma surgida no Reino Unido, outra na África do Sul e uma terceira no Brasil – vêm causando especial preocupação por serem mais transmissíveis, poderem escapar à ação de anticorpos e, em alguns casos, provocarem doença mais grave do que as que circulavam anteriormente. “Com as ferramentas genéticas de que dispomos atualmente, estamos assistindo à evolução desse patógeno ao mesmo tempo que ela ocorre”, afirma o virologista José Luiz Proença Módena, coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A primeira dessas variantes, que já se tornou uma linhagem e em março estava presente em 118 países, foi detectada em 14 de dezembro do ano passado no Reino Unido. Ela começou a circular em setembro no condado de Kent, no sudeste da Inglaterra, e rapidamente se espalhou. Apelidada inicialmente de variante de Kent ou britânica, tornou-se depois conhecida por um frio e sóbrio conjunto de letras e números (B.1.1.7) definido por uma nomenclatura proposta por pesquisadores da Austrália e do Reino Unido. Essa sequência de números indica que ela é a sétima variante derivada da primeira que descende da linhagem B.1, uma das duas que surgiu originalmente em Wuhan – a outra, possivelmente mais antiga, é a A.1, que desapareceu em meados do ano passado. Por causa de algumas alterações (mutações) que apresenta no genoma, a B.1.1.7 é transmitida ao menos duas vezes mais facilmente do que a linhagem que a originou e, ao que parece, também causa doença mais grave. No final de 2020 havia sinais de que ela poderia contribuir para o aumento das hospitalizações no Reino Unido e, agora, surgiram evidências de que está associada a um risco maior de morrer.

Em um estudo publicado em 15 de março na revista Nature, o epidemiologista Nicholas Davies e matemáticos e estatísticos da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres estimaram que uma pessoa infectada por essa variante tem, em média, uma probabilidade 61% maior de morrer do que alguém que contraiu alguma das linhagens que circulavam anteriormente. Eles chegaram a essa conclusão depois de analisar 4.945 óbitos ocorridos em um grupo de 1.146.534 britânicos que haviam testado positivo para o novo coronavírus. Dias antes, pesquisadores liderados pelo médico Robert Challen, da Universidade de Exeter, também no Reino Unido, apresentaram um resultado semelhante em artigo publicado em 10 de março na revista The BMJ. Ao comparar o total de mortes em um grupo de 54.906 britânicos infectados com a B.1.1.7 com os óbitos em número igual de pessoas que haviam contraído outra linhagem do vírus, verificaram que o primeiro grupo tinha um risco de morrer 64% maior do que o segundo.

Apesar de se disseminar facilmente na população humana, o Sars-CoV-2, na fase inicial da pandemia, parecia ser um vírus razoavelmente bem-comportado, que sofria modificações muito lentamente. A cada mês acumulava, em média, duas mutações na sequência de quase 30 mil bases nitrogenadas, as letras químicas que compõem seu genoma, uma espécie de manual de instruções para a fabricação de novas cópias do vírus. Só para se ter um parâmetro de comparação, o vírus da influenza A, causador de pandemias de gripe, evolui muito mais rapidamente: sofre uma mutação a cada vez que se multiplica, em questão de horas, ritmo que obriga a atualização anual da composição da vacina contra a gripe.

Já no final de 2020, quando eram anunciados os resultados de eficácia das primeiras vacinas e ressurgia a esperança de que a pandemia estivesse se atenuando, o novo coronavírus voltou a surpreender. “Passaram a surgir variantes que apresentavam simultaneamente várias mutações e se disseminaram rapidamente, substituindo as anteriores”, lembra o virologista Fernando Spilki, pesquisador da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, e coordenador da Rede Nacional de ômicas de Covid-19, a Corona-ômica BR, que acompanha a circulação do vírus no país.

Uma dessas variantes é a que originou a linhagem B.1.1.7. Ela apresenta 23 mutações em relação à B.1, de Wuhan, das quais 17 provocam a troca de um aminoácido nas proteínas do vírus – as outras seis são inócuas (ver infográfico abaixo). Os aminoácidos são compostos químicos que, unidos uns aos outros em sequência, formam as proteínas. Em alguns casos, a substituição de um único aminoácido é suficiente para alterar a estrutura tridimensional da proteína e modificar seu funcionamento.

Pesquisadores e profissionais da área da saúde se preocupam porque oito das substituições da B.1.1.7 (seis trocas e duas eliminações) ocorrem em alguns dos 1.273 aminoácidos da proteína spike (S), justamente a que permite ao vírus aderir à superfície das células humanas e invadi-las e é o principal alvo dos anticorpos produzidos por algumas vacinas. Uma mutação em especial chama a atenção: a N501Y. Essa mutação leva à substituição do aminoácido asparagina (N) pelo aminoácido tirosina (Y) na posição 501 da proteína S. Identificada pela primeira vez na linhagem B.1.1.7, essa troca parece aumentar a adesão do vírus às células e sua transmissibilidade. Por causa dessas características, a agência de saúde Public Health England (PHE), do Reino Unido, qualificou essa linhagem como variante de preocupação número 1 de dezembro de 2020.

Em meados de março, segundo estimativa da Nextstrain baseada em dados do sistema Pangolin, a linhagem B.1.1.7 causava 42% das infecções pelo novo coronavírus no mundo (ver gráfico abaixo). De maneira independente e quase simultânea, a mutação N501Y também apareceu nas duas outras linhagens do vírus que mais inquietam os especialistas: a B.1.351, originária da África do Sul, e a P.1, que surgiu em Manaus, no Brasil. Elas se encontram em expansão e, estima-se, já causam, respectivamente, 6% e 2% dos casos de Covid-19 no planeta. “Até o surgimento da variante B.1.1.7 no Reino Unido, acreditávamos que a taxa de evolução do vírus fosse lenta e que seria possível segurar o aumento de sua diversidade até a chegada das vacinas”, conta a médica Ester Sabino, da Universidade de São Paulo (USP), coordenadora de uma das equipes que identificaram a P.1.

A linhagem B.1.351 foi detectada inicialmente na região metropolitana de Nelson Mandela Bay, no sul da África do Sul, em outubro de 2020, embora possivelmente tenha surgido meses antes, e foi reportada pelas autoridades do país em dezembro. Descrita pelo grupo coordenado pelo virologista brasileiro Túlio de Oliveira, da Universidade KwaZulu-Natal, em um artigo publicado em março deste ano na revista Nature, ela apareceu com mais frequência em pessoas mais jovens e saudáveis e hoje já tem transmissão local na Europa e na América do Norte.

Os vírus dessa linhagem também exibem 23 modificações em seu genoma, oito delas no gene da proteína S. Além da N501Y, duas outras mutações na spike deixam em alerta os especialistas: a E484K, que representa a troca de um glutamato (E) por uma lisina (K) e em fevereiro deste ano começou a ser detectada também na linhagem britânica; e a K417N, na qual uma lisina é reposta por uma asparagina (N). Essas substituições alteram uma região da spike chamada domínio de ligação ao receptor, que entra em contato mais intimamente com o receptor ACE2 na superfície das células humanas e abre caminho para a entrada do vírus, e impedem que certos anticorpos produzidos após a aplicação de algumas vacinas ou infecções prévias por outras variedades do Sars-CoV-2 se conectem ao vírus e o neutralizem. Estudos preliminares indicam que as pessoas infectadas pela B.1.351 – a segunda variante de preocupação detectada em dezembro de 2020, segundo o PHE – apresentam maior quantidade de vírus no organismo, o que pode facilitar a transmissão, além de potencialmente se beneficiarem menos dos efeitos protetores de algumas vacinas.

Essas três alterações na spike também estão presentes na linhagem P.1, originária do Brasil, que tem ainda outras sete alterações na mesma proteína. Ela descende da linhagem B.1.1.28, encontrada no país desde o início da pandemia, e foi nomeada com outra letra porque o sistema só aceita três conjuntos de algarismos. A  linhagem brasileira possivelmente começou a circular em Manaus no início de novembro e foi detectada no mês seguinte, simultaneamente por pesquisadores da USP e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), durante o aumento no número de internações que marcou o início da segunda onda da pandemia na região Norte do país, quando o sistema de saúde do Amazonas colapsou e pessoas morreram por asfixia em consequência da falta de oxigênio medicinal nos hospitais.

Um indivíduo infectado pela P.1 produz, em média, duas vezes mais vírus do que os contaminados pelas linhagens que circulavam antes no país, constatou a equipe do virologista Renato Santana de Aguiar, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), integrante da rede Corona-ômica BR. A presença de mais vírus no organismo aumenta de 1,4 a 2,2 vezes a possibilidade de transmissão, segundo estimativa calculada pelo grupo liderado por Sabino e pelo biomédico português Nuno Faria, da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Outra equipe da USP, coordenada pelo biólogo Paulo Inácio Prado, verificou ainda que a P.1 tem uma probabilidade – baixa, é verdade, de 6,4% – de infectar novamente quem já foi contaminado por outras linhagens do vírus.

Alguns especialistas defendem que, diante dessas características da P.1, medidas mais drásticas de saúde pública deveriam ter sido adotadas no início do ano para tentar impedir a disseminação dessa linhagem, como um rígido controle de circulação de pessoas e o bloqueio de voos do Amazonas para outras regiões. Desde dezembro, no entanto, ao menos 120 mil pessoas deixaram o Amazonas rumo a outros estados e países – e até pacientes com Covid-19 foram transferidos para outras regiões brasileiras por falta de leitos.

Uma das consequências é que, em meados de março, a P.1 já representava 41% das infecções pelo novo coronavírus no Brasil (ver gráfico). Outra análise realizada pela Rede Genômica da Fiocruz indicava que em menos de três meses a linhagem se tornou responsável por mais da metade das infecções em seis estados: Pernambuco (51%), Rio Grande do Sul (63%), Rio de Janeiro (63%), Santa Catarina (64%), Paraná (70%) e Ceará (71%).“A situação que o país vive hoje é semelhante àquela em que se encontrava Manaus em dezembro, com a P.1 em franca disseminação”, afirma Sabino, que coordena no país o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), financiado pela agência britânica Medical Research Council e pela FAPESP.

“O Brasil tornou-se um terreno fértil para o surgimento de variantes e linhagens mais contagiosas”, afirma o virologista Eurico Arruda, da USP em Ribeirão Preto, que estuda os coronavírus há quase três décadas (ver Pesquisa FAPESP nº 301). A população suscetível a contrair o vírus é grande, o país vacina muito lentamente e as medidas de prevenção, como distanciamento social e uso de máscara, não vêm sendo adotadas de forma efetiva em todas as regiões. “Quanto mais gente o vírus infectar, mais ele vai se multiplicar e sofrer alterações”, explica.

Vírus são seres naturalmente propensos a acumular mutações em seu genoma porque, diferentemente dos seres vivos formados por células, não têm mecanismos eficientes de correção de erros. À medida que o material genético viral é copiado para gerar novos exemplares, alterações ocorrem aleatoriamente, de modo semelhante ao que acontece com alguém que copia à mão um texto longo (mesmo que de modo muito atento). Sem proteínas que detectem com eficácia as incorreções e as desfaçam, as mutações acabam incorporadas ao material genético dos novos vírus – no caso do Sars-CoV-2, uma molécula de RNA de fita simples.

“Mutações ocorrem com frequência, mas nem todas são importantes para aumentar a transmissibilidade ou a patogenicidade do vírus”, explica a bioquímica Marilda Siqueira, do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo, da Fiocruz, referência em vigilância genômica do coronavírus para o Ministério da Saúde e para a OMS. Outras, no entanto, podem conferir vantagem adaptativa ao vírus e permitir, por exemplo, que penetre mais facilmente nas células, multiplique-se mais ou escape à ação dos anticorpos. Nessas situações, elas se fixam no genoma do vírus e são transmitidas para as gerações futuras.

“Suspeitamos que esse seja o caso das mutações N501Y, E484K e K417N, que apareceram de modo independente em variantes surgidas em diferentes lugares do mundo e parecem aumentar a aptidão viral”, conta Aguiar, da UFMG. Além de estar presente na P.1, na B.1.351 de origem sul-africana e desde o início do ano também na britânica B.1.1.7, ela também aparece no material genético de duas outras variantes brasileiras, identificadas com auxílio do grupo de Siqueira: a P.2, que já se distribui por todo o país, e a N.9, detectada no início de março. Elas ainda estão sob investigação e por enquanto não preocupam como a P.1.

“Minha expectativa é que, com o tempo, surjam variantes mais transmissíveis, mas que causem uma doença mais branda, como ocorreu com o vírus da influenza A, que causou a pandemia de gripe espanhola em 1918”, diz Arruda. Publicada em 9 de março na revista Science, uma análise da diversidade genética do Sars-CoV-2 em 1.313 pessoas feita pela epidemiologista Katrina Lythgoe, da Universidade de Oxford, e colaboradores sugere que o desenvolvimento de variantes mais transmissíveis e que escapem à ação do sistema de defesa seja incomum. Uma vez que emergem, no entanto, elas podem se disseminar rapidamente.

Além de permitir ao vírus se espalhar com mais facilidade, as mutações encontradas nas novas linhagens vêm tirando o sono de muitos especialistas pela ameaça que podem representar para a eficácia das vacinas. Os imunizantes produzidos pelas farmacêuticas norte-americanas Janssen e Novavax, por exemplo, já mostraram ser menos eficientes contra a B.1.351, da África do Sul. Assim como a Novavax, a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca também perde um pouco do seu efeito ante a linhagem B.1.1.7, do Reino Unido. Seu desempenho, porém, é muito pior contra a linhagem da África do Sul. Ela mostrou uma importante redução na capacidade de evitar os casos leves e moderados de doença causada pela B.1.351 (não houve casos graves no grupo vacinado nem no que recebeu placebo), de acordo com os resultados de um ensaio clínico com cerca de 2 mil participantes publicados em 16 de março na revista New England Journal of Medicine.

Estudos realizados pelo grupo de Módena, na Unicamp, e pela equipe do imunologista Michael Diamond, da Universidade de Washington em Saint Louis, Estados Unidos, identificaram, respectivamente, algum nível de perda de efeito de anticorpos produzidos pela CoronaVac e pela vacina da Pfizer contra a linhagem P.1 em testes in vitro. Ainda não é possível, no entanto, afirmar que essas variantes escapem do efeito das vacinas em pessoas. A literatura científica sobre o tema ainda traz contradições e outros trabalhos chegaram a conclusões diferentes. Mesmo assim, no final de fevereiro alguns fabricantes de vacinas anunciaram que estão trabalhando em doses de reforço e formulações que contemplem as mudanças das variantes.

Além disso, os anticorpos não funcionam apenas aderindo ao vírus e bloqueando sua entrada nas células. Eles podem desencadear reações químicas que são lesivas para as partículas virais ou servir de sinalizadores, marcando os vírus para que sejam engolfados e digeridos por células de defesa. “Avaliar outras estratégias do sistema imune, como a atividade das células de defesa, é mais laborioso, mas essencial para se chegar a conclusões mais robustas”, conta o biomédico William Souza, que faz estágio de pós-doutorado na Universidade de Oxford e colaborou nos experimentos de Módena e de Sabino. “As vacinas continuam evitando que as pessoas adoeçam e morram.”

Para Módena, os resultados obtidos até o momento contra as novas linhagens do vírus reforçam a ideia de que mesmo quem já teve a doença ou foi vacinado precisa manter os cuidados e continuar usando máscaras e adotando medidas de higiene e distanciamento social. “O que se sabe até o momento indica que quem já teve Covid-19 ou mesmo quem já recebeu algumas das vacinas pode ser infectado pelo vírus de uma das linhagens de preocupação”, afirma. Em um levantamento realizado em janeiro pela revista Nature com 100 virologistas, imunologistas e especialistas em doenças infecciosas de diferentes países, 90% afirmaram imaginar que o vírus pode se tornar endêmico e continuar circulando em pequenos bolsões nos próximos anos – seja porque escapa à ação dos anticorpos, porque não haverá vacinas suficientes para todos, porque alguns se recusam a ser vacinados ou porque eles continuaram a infectar animais na natureza.

Para acompanhar o surgimento das variantes e linhagens, os especialistas sequenciam o material genético dos vírus em circulação em certo momento e determinada região e comparam com o das que existiam previamente. Até o início de março, haviam sido sequenciados no mundo quase 670 mil genomas do Sars-CoV-2 – cerca de 4 mil sequenciamentos foram feitos no Brasil. O país conta hoje com ao menos três redes de laboratórios que fazem a vigilância genômica de forma sistemática: a Rede Genômica da Fiocruz, financiada pelo Ministério da Saúde; a Rede Nacional de ômicas de Covid-19 (Corona-ômica BR), apoiada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações; e o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (Cadde), custeado pela agência britânica Medical Research Council e pela FAPESP. “Precisamos ampliar nossa capacidade de sequenciamento e estamos iniciando esse projeto”, conta a bioquímica Marilda Siqueira, pesquisadora da Rede Genômica da Fiocruz. “Mesmo assim, fomos capazes de identificar a introdução da linhagem britânica em vários estados e de detectar o início da circulação da P.1, da P.2 e da N.9.” O sequenciamento do genoma depende do uso de reagentes importados, leva dias e custa cerca de R$ 600. Para melhorar a vigilância, alguns laboratórios nacionais desenvolveram testes moleculares (PCR) que permitem detectar as novas linhagens do vírus. Um deles é o da Fiocruz no Amazonas. Outro é o do virologista Renato Santana Aguiar, da UFMG, que identifica a P.1, a P.2, a B.1.1.7 e a B.1.351. “O teste sai por R$ 60 e fica pronto em horas”, conta Aguiar. “Ele permitirá conhecer com mais detalhes a circulação dessas linhagens.” A genotipagem por PCR, no entanto, não substitui o sequenciamento, única forma de identificar o surgimento de novas variantes e linhagens.

Quem já leu algo sobre as novas linhagens e variantes do novo coronavírus se deparou com sequências de letras e números que parecem não fazer sentido. São tentativas de organizar o conhecimento sobre o vírus e acompanhar sua dispersão e evolução. Nos últimos meses, ao menos três estratégias de nomeá-los se tornaram conhecidas. Uma delas é um sistema proposto pelo biólogo Andrew Rambaut, da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Conhecido pela sigla Pangolin, acrônimo de Phylogenetic Assignment of Named Global Outbreak Lineages, ele fornece informações mais detalhadas sobre a circulação do vírus em determinado momento. Nesse sistema, as variantes ou linhagens são classificadas pelo grau de parentesco evolutivo, atribuindo uma letra seguida de até três algarismos. Nele, a linhagem surgida no Reino Unido é a B.1.1.7, a sétima variante derivada da primeira que descende da linhagem B.1, uma das duas que apareceram originalmente em Wuhan. A linhagem sul-africana é a B.1.351 (351ª descendente da B.1). Já a brasileira, por ser descendente da linhagem B.1.1.28, que já tinha três números, recebeu uma nova letra e se tornou a P.1. Um segundo sistema de classificação é o Nextstrain, proposto pelo grupo de Trevor Bedford, do Centro de Pesquisa para o Câncer Fred Hutchinson, nos Estados Unidos, e colaboradores. Ele agrupa os vírus em conjuntos maiores (clados), que são descritos pelo ano de identificação do clado, seguido de uma letra e do nome de uma mutação definidora do grupo. Assim, a linhagem do Reino Unido integrou o clado 20I/501Y.V1; a da África do Sul o 20H/501.V2 e do Brasil o 20J/501.V3. O terceiro sistema de classificação é de um consórcio internacional criado em 2008, o Gisaid. Adotado pela OMS, também reúne os vírus por clados, definidos por uma ou mais letras que integram as principais mutações do grupo. Nela, a linhagem do Reino Unido está no clado GRY, a da África do Sul no GH e a do Brasil no GR.

Projetos
1. Centro conjunto Brasil-Reino Unido para descoberta, diagnóstico, genômica e epidemiologia de arbovírus (Cadde) (nº 18/14389-0); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Ester Cerdeira Sabino (USP); Investimento R$ 5.331.725,16.
2. ICTP – Instituto sul-americano para física fundamental: Um centro regional para física teórica (nº 16/01343-7); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Nathan Jacob Berkovits (Unesp); Investimento R$ 15.421.379,38.
3. Patogênese e neurovirulência de vírus emergentes no Brasil (nº 16/00194-8); Modalidade Jovem Pesquisador; ¨C29C José Luiz Proença Módena (Unicamp); ¨C30C R$ 2.509.395,80.
¨C31C Caracterização de fatores de risco intrínsecos e o desenvolvimento de novas alternativas de diagnóstico e tratamento para Covid-19 (nº 20/04558-0); ¨C32C Auxílio à Pesquisa – Regular; ¨C33C José Luiz Proença Módena (Unicamp); ¨C34C R$ 184.077,00.
¨C35C Replicação e efeitos celulares de rinovírus em tecidos linfoides (nº 18/25605-6); ¨C36C Auxílio à Pesquisa – Regular; ¨C37C Eurico de Arruda Neto (FMRP-USP); ¨C38C R$ 236.000,00.

Artigos científicos
DAVIES, M. G. et al. Increased mortality in community-tested cases of SARS-CoV-2 lineage B.1.1.7. Nature. 15 mar. 2021.
CHALLEN, R. et al. Risk of mortality in patients infected with SARS-CoV-2 variant of concern 202012/1: matched cohort study. The BMJ. 10 mar. 2021.
TEGALLY, H. et al. Emergence of a SARS-CoV-2 variant of concern with mutations in spike glycoprotein. Nature. 9 mar. 2021.
NAVECA, F. et al. Phylogenetic relationship of SARS-CoV-2 sequences from Amazonas with emerging Brazilian variants harboring mutations E484K and N501Y in the Spike protein. Virological.org. 11 jan. 2021.
FARIA, N. R. et al. Genomic characterisation of an emergent SARS-CoV-2 lineage in Manaus: preliminary findings. Virological.org. 12 jan. 2021
FUJINO, T. ¨C50C Novel SARS-CoV-2 Variant in Travelers from Brazil to Japan. ¨C51C. 10 fev. 2021.
NAVECA, F. ¨C52C COVID-19 epidemic in the Brazilian state of Amazonas was driven by long-term persistence of endemic SARS-CoV-2 lineages and the recent emergence of the new Variant of Concern P.1. ¨C53C. 25 fev. 2021.
RESENDE, P. C. ¨C54C. A potential SARS-CoV-2 variant of interest (VOI) harboring mutation E484K in the Spike protein was identified within lineage B.1.1.33 circulating in Brazil. ¨C55C. 13 mar. 2021.
FARIA, N. R.¨C56C Genomics and epidemiology of a novel SARS-CoV-2 lineage in Manaus, Brazil. ¨C57C. 3 mar. 2021.
COUTINHO, R. M. ¨C58C Model-based estimation of transmissibility and reinfection of Sars-CoV-2 P.1 variant. ¨C59C. 9 mar. 2021.
LYTHGOE, K. A. ¨C60C. Sars-CoV02 within-host diversity and transmission. ¨C61C. 9 mar. 2021.
MADHI, S. A. ¨C62C Efficacy of the ChAdOx1 nCoV-19 Covid-19 Vaccine against the B.1.351 Variant. ¨C63C. 16 mar. 2021.
SOUZA, W. M. ¨C64C Levels of Sars-CoV-2 lineage P.1 neutralization by antibodies elicited after natural infection and vaccination. ¨C65C. 1º mar. 2021.
CHEN, R. E.¨C66C Resistance of Sars-CoV-2 variants to neutralization by monoclonal and serum-derived polyclonal antibodies. ¨C67C. 4 mar. 2021.
LIU, Y. ¨C68C Neutralizing Activity of BNT162b2-Elicited Serum. ¨C69C. 8 mar. 2021.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Pandemia mobiliza a criação de redes de pesquisa

 Edmur Azevedo Pugliesi e Raul Borges Guimarães (Unesp)

Em busca de respostas à crise sanitária, social e econômica que se instalou no país com a chegada da pandemia de Covid-19, pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e instituições de ensino superior têm estabelecido, desde março de 2020, redes de trabalho para ampliar a interlocução com o poder público, contribuir na tomada de decisões e na formulação de políticas públicas. Pesquisa FAPESP mapeou ao menos 20 iniciativas nesse sentido, que envolvem desde análises do impacto do vírus Sars-CoV-2 entre populações vulneráveis até o desenvolvimento de metodologias que permitem rastrear e antecipar a dinâmica de disseminação de distintos vírus e que podem apoiar os gestores na elaboração de medidas de contenção.

“No último ano, observamos uma disseminação de grupos e associações que começaram a produzir análises e a buscar dados precisos sobre a pandemia, como forma de aumentar a transparência das informações fornecidas pelos governos”, afirma o sociólogo Glauco Arbix, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Exemplo desse movimento é a Rede de Pesquisa Solidária, criada por pesquisadores da área de humanidades da USP com a proposta de colaborar com o aperfeiçoamento das políticas públicas de combate à pandemia elaboradas pelos governos federal, estadual e municipal (ver “Caçadores de dados”, entrevista com Lorena Barberia, no site de Pesquisa FAPESP). A rede é apenas uma dentre as diversas iniciativas criadas por pesquisadores da USP para colaborar com o combate à pandemia. Hoje ela congrega mais de 100 especialistas, entre cientistas políticos, sociólogos, médicos, engenheiros, economistas e antropólogos. “Produzimos 26 notas técnicas, que foram divulgadas em boletins semanais distribuídos a mais de 10 mil pessoas”, observa Arbix.

Além de influenciar o debate público, a rede abriu canais de diálogo com formuladores de políticas, com a realização de reuniões com integrantes dos poderes Executivo e Legislativo dos estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul, e audiências com os governadores da Bahia e do Maranhão. “A Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul solicitou análises sobre testagem à rede, que a ajudaram a planejar medidas de contenção para os municípios”, informa. Além disso, o grupo organizou seminários internacionais – um deles contou com a presença dos secretários de governo de Buenos Aires, na Argentina, e de finanças de Bogotá, na Colômbia, e foi assistido virtualmente por mais de 3 mil pessoas.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Evento promovido pelo Instituto do Legislativo Paulista e pela FAPESP reuniu cientistas envolvidos nos testes clínicos de quatro imunizantes contra o SARS-CoV-2

André Julião | Agência FAPESP – A corrida das vacinas não é uma disputa entre laboratórios, mas contra o tempo. As novas ondas de COVID-19 e as variantes emergentes do SARS-CoV-2 são alguns dos obstáculos que só serão superados com o maior número possível de vacinas no mercado. Essa foi uma das conclusões de um debate virtual realizado no dia 1º de março com cientistas envolvidos em estudos clínicos de quatro imunizantes, dois deles já disponíveis no Brasil.

O evento integra o Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação, organizado por meio de parceria entre a Fundação e o Instituto do Legislativo Paulista (ILP) da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). A íntegra do evento está disponível no YouTube.

“É uma corrida contra o tempo, não de uma vacina contra outra. Vamos precisar de vários imunizantes para conseguir a cobertura necessária para enfrentar o que vem pela frente, como novas ondas e variantes”, disse Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, mediador do encontro.

Os palestrantes participaram dos estudos clínicos de quatro vacinas contra a COVID-19: CoronaVac (Sinovac Biotech com Instituto Butantan), Covidshield (AstraZeneca e Universidade de Oxford com Fundação Oswaldo Cruz), Ad26.CoV2 (Janssen/Johnson & Johnson) e Comirnaty (Pfizer/BioNTech).

“O estudo clínico [da vacina do Butantan] foi realizado com apoio da FAPESP em 16 centros espalhados pelo Brasil. Mais de 13 mil voluntários foram incluídos e, de todos os estudos realizados até então, certamente foi o mais complexo, o mais desafiador, porque escolheu como população-alvo exatamente os profissionais de saúde que estavam na linha de frente. E os critérios clínicos de inclusão e definição de COVID-19 foram os mais amplos de todos. Isso caracterizou o que eu chamo de o maior estresse que uma vacina poderia ter sofrido nesse momento de pandemia. E os resultados são extremamente animadores”, disse Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan.

Enquanto as outras três vacinas precisam de duas doses para ter a eficácia garantida, o imunizante da Janssen requer apenas uma aplicação. No estudo clínico de fase 3, preveniu novos casos sintomáticos em 85% dos voluntários de forma global, incluindo as variantes D614G e P.2. Os testes foram realizados no Brasil, África do Sul e Estados Unidos, onde a vacina foi aprovada para uso emergencial (em 27/02) pela Food and Drug Administration (FDA, agência de vigilância sanitária norte-americana).

“O estudo de fase 3 incluiu pouco mais de 44 mil participantes [no Brasil, África do Sul e Estados Unidos] e foi realizado no auge da pandemia. Essa vacina, no esquema de uma dose, oferece proteção substancial, especialmente contra a COVID-19 grave, independentemente da variante viral. Foi bem tolerada, segura e tem esquema de armazenamento e transporte compatível com os canais de distribuição existentes”, explicou Beatriz Grinsztejn, pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI), da Fiocruz, no Rio de Janeiro, que coordena o estudo no Brasil.

Assim como a vacina da Janssen, a desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca também utiliza a tecnologia de adenovírus, um vírus inócuo a humanos modificado de forma a carregar a sequência genética da proteína S (spike) do vírus SARS-CoV-2 e induzir uma reação a esse antígeno no organismo. Lily Yin Weckx, professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e uma das coordenadoras dos testes da vacina no Brasil, afirmou que uma dose forneceu 76% de proteção durante três meses. Os anticorpos passam a ser efetivos 22 dias após a primeira dose.

Para verificar o efeito da vacina sobre as novas variantes, a equipe faz o sequenciamento genético de amostras coletadas dos voluntários. As análises fazem parte de uma pesquisa de doutorado apoiada pela FAPESP.

“Temos muito pela frente, o estudo continua, mas já conseguimos a participação do Brasil em uma vacina segura e eficaz que pode ter um impacto no combate à pandemia de coronavírus”, disse a pesquisadora.

Novas vacinas

O imunizante desenvolvido pela Pfizer/BioNTech se vale da ação de moléculas de RNA mensageiro sintetizadas em laboratório para estimular uma resposta imunológica específica contra o SARS-CoV-2. O método inicialmente foi desenvolvido para o tratamento de câncer e ganhou impulso durante a pandemia de COVID-19.

Segundo Edson Duarte Moreira Junior, pesquisador do Instituto Gonçalo Moniz da Fiocruz, em Salvador, e chefe do Centro de Pesquisa Clínica do Hospital Santo Antônio, novas vacinas devem surgir nos próximos anos com essa tecnologia. De especial interesse para o Brasil, estão duas da empresa Moderna, atualmente em testes clínicos para zika (fase 1 e 2 acelerada) e chikungunya (fase 1).

“É uma tecnologia segura porque tem compostos químicos sem proteínas virais e boa eficácia, já que desperta resposta imune ampla com o mínimo de imunidade antivetor, diferente das que utilizam vetores [vírus], e permite reforços frequentes. Além disso, é de desenvolvimento rápido e permite produção industrial em escala acelerada”, afirmou o pesquisador, que coordenou testes clínicos da vacina Pfizer/BioNTech no Brasil.

Primeira vacina contra o novo coronavírus utilizada no mundo, a Comirnaty teve estudos de fase 3 conduzidos em seis países e recrutou mais de 43 mil voluntários – um número superior a 8,6 mil (22%) tinha acima de 60 anos, 46% possuíam comorbidades e 14 mil (cerca de um terço) tinham obesidade. A eficácia foi de 95%.

Os pesquisadores lembraram, no entanto, que as opções disponíveis no mercado não garantem a erradicação do vírus, que muitos especialistas acreditam se tornará endêmico. Pensando nisso, o Instituto Butantan trabalha no desenvolvimento de três novos imunizantes com diferentes tecnologias.

“Uma das candidatas já venceu a fase pré-clínica e brevemente deve entrar na fase clínica acelerada 1 e 2. Também é baseada em vírus inativado, mas em plataforma diferente da CoronaVac, pois não envolve cultivo de células. [A nova vacina utiliza] ovos embrionados, muito assemelhado ao que acontece na vacina da gripe produzida pelo instituto”, afirmou Covas.

Até o dia do evento, segundo a Organização Mundial de Saúde, 186 possíveis novos imunizantes contra o novo coronavírus estavam em testes pré-clínicos, 74 em fase clínica (testes em humanos), sendo 15 na fase 3 e quatro na fase 4.
 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Projeto da FAPESP está com inscrições abertas

Como o processo de replicação do DNA contribui para o sucesso da infecção causada por Trypanosoma cruzi

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O objetivo deste projeto é investigar o processo de replicação, desde a montagem do complexo de pré-replicação, passando pela ativação de origens até eventuais estresses replicativos em T. cruzi, no contexto de seu ciclo celular e de vida.

A modalidade Auxílios Temáticos apoia a pesquisa a ser desenvolvida sob a responsabilidade de um Pesquisador Principal, vinculado a instituições superiores de ensino e pesquisa no Estado de São Paulo. A duração máxima do apoio a um Auxílio Temático é de 5 anos e a seleção é feita em sistema de avaliação pelos pares.

Processo:20/00694-6
Linha de fomento:Auxílio à Pesquisa – Temático
Vigência:01 de dezembro de 2020 – 30 de novembro de 2025
Área do conhecimento:Ciências Biológicas – Parasitologia – Protozoologia de Parasitos

Resumo: A replicação do DNA é um processo que deve ser bastante controlado para garantir a manutenção fidedigna do genoma nas células filhas. Por outro lado, é um processo que pode ter como consequência mutações. O equilíbrio entre um processo cuidadoso e um permissivo a erros vai resultar numa maior ou menor variabilidade genética. O objetivo deste projeto é investigar o processo de replicação, desde a montagem do complexo de pré-replicação, passando pela ativação de origens até eventuais estresses replicativos em T. cruzi, no contexto de seu ciclo celular e de vida, para desvendar os mecanismos moleculares que permitem (i) o bloqueio da replicação nas formas infectivas; e (ii) a variabilidade genética deste organismo, fundamental para o sucesso de infecção do hospedeiro mamífero. Técnicas de genética reversa, de busca de interatores (enzyme tagging) e de caracterização de modificações pós-traducionais em proteínas permitirão a investigação de proteínas do complexo de pré-replicação e replicação. Essa abordagem nos permitirá montar um robusto cenário sobre os mecanismos moleculares que o T. cruzi conta para bloquear a replicação nas formas infectivas. Através da utilização das técnicas de Chip-seq e Gro-seq, além de modelagens matemáticas, vamos investigar a dinâmica de replicação de T. cruzi. Neste sentido, pretendemos avaliar a contribuição da organização do genoma nesta dinâmica e identificar possíveis regiões favoráveis a estresses replicativos que podem contribuir para a variabilidade genética de T. cruzi. (AU).

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Fonte: FAPESP

Vacinas: desafios contra a pandemia

Kevin Frayer / Getty Images Vacinação em trabalhadores chineses em Beijing
Kevin Frayer / Getty Images

O desenvolvimento de várias vacinas seguras e eficazes em tempo recorde é um feito extraordinário de cientistas que trabalham em todo o mundo para conter a pandemia do novo coronavírus. A aprovação em 17 de janeiro, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de dois imunizantes para uso emergencial contra a Covid-19 no Brasil pode marcar o começo de uma nova fase no combate ao vírus Sars-CoV-2, que já matou mais de 2 milhões de pessoas ao redor do planeta, 220 mil delas apenas no Brasil. Os especialistas advertem, no entanto, que o início da aplicação das vacinas não significa que o fim da epidemia esteja próximo – nem aqui, nem em outros países.

No Brasil, as três primeiras fases previstas no Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19 deveriam atingir cerca de 70 milhões de pessoas de grupos de risco, com duração de quatro meses. Depois, seria necessário mais um ano para vacinar o restante da população brasileira – excluindo grávidas e crianças, que não participaram dos testes clínicos. Em uma nota do dia 20 de janeiro, ao responder a um questionamento do site de notícias UOL, o Ministério da Saúde estimou que, “no período de 12 meses, posterior à fase inicial, concluirá a vacinação da população em geral, o que dependerá, concomitantemente, do quantitativo de imunobiológico disponibilizado para uso”.

As vacinas CoronaVac, fabricada pelo laboratório chinês Sinovac Life Sciences e envasada no Brasil pelo Instituto Butantan, e a Covishield, da Universidade de Oxford e da empresa farmacêutica sueco-britânica AstraZeneca, vêm da China e da Índia, respectivamente. Como a produção dos dois laboratórios não é suficiente para atender prontamente aos pedidos que vêm de muitos países, a incerteza permanece. A fabricação dos imunizantes no Brasil está prevista para começar no segundo semestre deste ano na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no caso da Covishield, e no segundo semestre de 2022 no Butantan, no caso da CoronaVac (o prédio para produção ficará pronto até outubro deste ano).

O problema brasileiro é também o principal desafio global: a escassez de doses. Em um primeiro momento, após a aprovação do uso emergencial pela Anvisa, o país tinha à disposição 6 milhões de doses da CoronaVac. Como a imunização exige duas doses, a quantidade é o bastante para vacinar 3 milhões de pessoas, número inferior ao da força de trabalho da saúde, estimado em 6 milhões. Outros 4,8 milhões de doses foram autorizadas para uso pela Anvisa no dia 22. Nesse mesmo dia, o país recebeu da Índia 2 milhões de doses da segunda vacina aprovada, a Covishield, hoje fabricada pelo laboratório Serum. “A produção mundial de vacinas atual é insuficiente para as necessidades de qualquer país”, afirma o médico José Cassio de Moraes, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e integrante da Comissão de Epidemiologia da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Novos problemas surgem à medida que as campanhas de vacinação se desenrolam no mundo. Até 1 de fevereiro, 101,3 milhões de doses haviam sido aplicadas em cerca de 50 países, segundo o site Our World in Data. Os que mais vacinaram, em números absolutos, foram Estados Unidos (32,2 milhões), China (24 milhões), Reino Unido (9,8 milhões) e Israel (4,9 milhões). Problemas de logística, confusão na distribuição e até falta de mão de obra para a aplicação da vacina vêm sendo noticiados nos Estados Unidos e na Europa. Veja no mapa abaixo, atualizado diariamente, a quantidade de pessoas vacinadas pelo mundo por grupo de 100 pessoas.

A escassez de vacinas levou alguns países a modificar o intervalo de aplicação das doses inicialmente previsto, suscitando debates entre os pesquisadores. No Reino Unido, onde a população está sendo imunizada com a vacina Covishield e a da Pfizer/BioNTech, o Comitê Conjunto para Vacinação e Imunização recomendou a aplicação da primeira dose ao máximo possível de pessoas elegíveis nas primeiras fases da campanha, para maximizar o impacto de curto prazo.

A segunda dose das duas vacinas, segundo essa recomendação, pode ser aplicada após um intervalo que vai de três semanas (no caso da Pfizer) e quatro (Covishield) a até 12 semanas. Nos ensaios clínicos de fase 3 da Pfizer o intervalo entre doses preconizado foi de 21 dias. De acordo com o estudo publicado na revista científica New England Journal of Medicine, após a primeira dose da Pfizer a eficácia foi de 52% e, sete dias depois da segunda dose, subiu para 95%. Espera-se que um intervalo maior dê mais tempo aos fabricantes para aumentar a produção. Os pesquisadores do comitê britânico orientam que não se aplique uma dose única nem que se tome uma vacina diferente da primeira na segunda dose.

“É importante ressaltar que, em nenhum momento, a recomendação determina que se pare em uma dose”, afirma a imunologista brasileira Daniela Ferreira, professora titular em vacinologia e chefe do Departamento de Ciências Clínicas na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido. De acordo com a pesquisadora, que coordenou os testes da Covishield em Liverpool, estudos publicados sobre esse imunizante mostram que as pessoas que receberam as doses com um intervalo maior tiveram proteção mais robusta. Já com relação à vacina da Pfizer, não há dados mostrando se a alteração do intervalo entre as doses afeta positiva ou negativamente a proteção por ela concedida.

Nos Estados Unidos, onde estão sendo aplicadas as vacinas da Pfizer e da Moderna, pesquisadores têm se manifestado contra a disposição de autoridades para ministrar uma dose apenas. “Os achados obtidos a partir dos ensaios clínicos com dezenas de milhares de voluntários são os regimes de duas doses com intervalos um tanto apertados. Até que tenhamos evidência empírica para sugerir que possíveis mudanças não reduzam a segurança e a eficácia, a aplicação de duas doses espaçadas é a que mostrou alta eficácia nos ensaios”, escreveram os médicos Larry Corey, da Universidade de Washington, e Chris Beyrer, da Escola de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins, em texto publicado no site da Johns Hopkins.

Os testes com outros imunizantes também foram feitos com intervalo de doses menor que o habitual, em razão da urgência do desenvolvimento. De acordo com Ferreira, os dados da Covishield indicando resultados melhores após um intervalo maior entre as doses está em linha com os conhecimentos sobre imunologia. “Ao observarmos outras vacinas, quando se aumenta esse intervalo vê-se uma melhor imunogenicidade [capacidade de estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos] e uma melhor proteção. Sabe-se também que uma segunda dose é importante não apenas para aumentar o nível de proteção do indivíduo, mas também para a duração da resposta imune”, afirma.

Um ponto importante, ressaltam os pesquisadores, é que as informações dos ensaios clínicos e do início das campanhas ainda não permitem responder se as vacinas protegem contra a transmissão da infecção. Os testes concentraram-se em avaliar a capacidade de proteger contra doença grave, de modo a evitar a hospitalização (ver reportagem). Bloquear a infecção e a transmissão faz diferença quando se trata da proteção coletiva contra a doença. “Nenhum desses estudos verificou, ainda, se houve bloqueio da transmissão. Nós não sabemos se de fato a pessoa não é infectada pelo vírus e, portanto, não o passa para frente, ou se ela contrai o vírus e não desenvolve o sintoma”, diz o físico Renato Coutinho, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e membro do Observatório Covid-19 BR.

As respostas para essas e outras questões devem surgir nos próximos meses. “Este ano, teremos o resultado do monitoramento de 12 meses das pessoas que participaram dos primeiros ensaios clínicos. Conseguiremos ter alguma ideia sobre o nível da resposta imunológica, se dura pelo menos um ano”, afirma Ferreira. Os pesquisadores coletam dados para saber se a vacina protege igualmente contra as novas variantes do Sars-CoV-2.

Os especialistas defendem também que quanto mais tipos de vacina um país tiver, melhor. “O número de doses necessárias para imunizar populações inteiras é muito grande. Isso nunca foi feito em escala global. Precisamos de todas as vacinas, das que já estão aprovadas e de todas as outras que virão”, ressalta a pesquisadora.

O médico Jorge Kalil, professor de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor), concorda. “A solução aguda são as primeiras vacinas. A solução permanente serão outras vacinas, de novas gerações.” Kalil lidera uma equipe no InCor que desenvolve uma vacina contra a Covid-19 que está na fase pré-clínica, com estudos feitos em modelo animal.

Para Ferreira, mais importante que a diferença nas eficácias anunciadas pelos laboratórios é a publicação clara dos dados de ensaios clínicos de fase 3 e a aprovação prévia de uma agência reguladora. No Brasil, os pesquisadores também alertam para o desafio reapresentado pela necessidade de se ter uma boa comunicação para uma campanha de vacinação. “Lamentamos a discussão política a respeito do uso da vacina, que não leva a nada”, critica Moraes, da Abrasco. “Temos uma estrutura construída ao longo de quase 50 anos, com quase 37 mil salas de vacinação, rede de distribuição montada e sistema de informação. Todos esses atritos geram desconfiança e dificultam convencer a população a se vacinar.”

Mesmo que as recém-iniciadas campanhas de vacinação se mostrem bem-sucedidas, pesquisadores e médicos ao redor do mundo ressaltam que, ao menos nos próximos meses, a população não deve abandonar as medidas de proteção já conhecidas: máscaras, higiene das mãos e distanciamento social.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Grupo internacional busca modelos capazes de prever epidemias de dengue, zika e febre amarela

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Primeira doença viral transmitida por mosquitos a ter uma vacina licenciada, a febre amarela há séculos tem sido precursora no entendimento de como surgem e devem ser combatidas as epidemias.

Os sucessivos surtos e o elevado número de mortos pela doença marcaram a história das Américas desde que foi introduzida no continente no século 17. Epidemias de febre amarela estiveram associadas ao tráfico de pessoas escravizadas, a corrida do ouro e ocupação do “velho oeste” dos Estados Unidos, a revolução do Haiti e ainda a disputa geopolítica pelo canal do Panamá, apenas para citar alguns exemplos.

Séculos depois do primeiro registro da doença nas Américas, uma equipe internacional de pesquisadores iniciará mais um estudo pioneiro no campo das epidemias, desta vez com o objetivo de monitorar e desenvolver modelos de predição de ressurgências não só de epidemias de febre amarela, mas também de outros vírus transmitidos por mosquitos (arboviroses), como dengue, zika e chikungunya.

“Temos um conhecimento muito bem estabelecido sobre os ciclos dessas doenças e sobre possíveis novos surtos. No entanto, falta ainda um conhecimento sistêmico que determine quando ocorrerá uma nova epidemia. Nosso objetivo é monitorar e criar modelos preditivos para poder antecipar ações de combate e proteção da população, além de entender melhor a conjunção de fatores que levam a novos surtos”, diz Maurício Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e integrante do grupo de pesquisa Create-NEO, projeto financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos Estados Unidos.

A nova pesquisa é desdobramento de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP, cujo objetivo foi monitorar a população de mosquitos em ambiente urbano na região de São José do Rio Preto (SP) e a população de macacos e mosquitos em ambiente de transição entre as zonas rural e urbana de Manaus (AM).

Além da Famerp, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Fundação de Medicina Topical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), o projeto inclui centros de pesquisa nos Estados Unidos, entre eles The University of Texas Medical Branch (UTMB), New Mexico State University (NMSU), Massachusetts Institute of Technology (MIT) e Cary Institute of Ecosystem Studies. Também participa o Instituto Conmemorativo Gorgas de Estudios de la Salud (ICGES), no Panamá, entre outros parceiros.

Para marcar o início do projeto, os pesquisadores publicaram um artigo na revista Emerging Topics in Life Science, no qual revisam os fatores que influenciam o potencial de reemergência da febre amarela.

“O desmatamento, os padrões sazonais de chuva e a população de primatas não humanos têm influência em novos surtos, mas falta ainda saber qual é o ponto crítico para que eles ocorram. Para descobrir isso, vamos desenvolver modelos preditivos a partir de pesquisa e monitoramento realizados no interior de São Paulo, Amazonas, Pantanal e no Panamá – hotspots dessas arboviroses”, diz Nogueira.

Até agora, sabe-se por análise histórica que, no Brasil, novos surtos de febre amarela tendem a ocorrer a cada sete ou dez anos. “Mas temos muitas arboviroses no país e isso faz com que a gente viva constantemente em epidemias”, explica Livia Sacchetto, pesquisadora da Famerp e integrante do projeto Create-NEO.

Da floresta à cidade e vice-versa

De acordo com a pesquisadora, o projeto tem também como objetivo entender melhor e antecipar a ocorrência de spillover, quando há o transbordamento de um arbovírus do ciclo urbano para o silvestre e da floresta para as cidades.

Doenças infecciosas como dengue, zika e chikungunya são transmitidas para humanos e macacos por mosquitos Aedes aegypti infectados. No caso da febre amarela, além do A. aegypti como vetor urbano, há o ciclo silvestre, caso em que mosquitos de áreas florestais ou rurais de outro gênero (Haemagogus) são infectados pelo flavivírus, causador da doença.

Mesmo com uma vacina eficaz, desenvolvida em 1937, e a ausência de registro de casos da doença por transmissão urbana no Brasil desde 1942, ainda seguem comuns episódios de reemergência do vírus do ciclo silvestre de febre amarela que se espalham para as cidades.

“Ainda temos muita morte em humanos e macacos por epidemias de febre amarela no Brasil e em outras localidades do continente americano e africano. Apesar da existência da vacina e dos avanços no controle da transmissão da doença, continuamos tendo casos emergentes do ciclo silvestre, pois o vírus está endêmico em parte do Brasil, com uma circulação estabelecida e persistente entre mosquitos vetores silvestres e os primatas não humanos, que são os hospedeiros primários da febre amarela”, explica Sacchetto.

Uma das grandes dificuldades em controlar a doença, de acordo com os pesquisadores, ocorre quando um vírus se estabelece no ciclo de transmissão enzoótica – no caso da febre amarela, em primatas não humanos.

“É muito mais difícil fazer o controle do vírus no ciclo silvestre. Quando o ciclo enzoótico é estabelecido, o vírus se mantém no ambiente silvestre – como a febre amarela – com a possibilidade de ser transportado para as cidades por meio de um caso de infecção acidental em um humano”, diz a pesquisadora.

Sacchetto explica que a circulação do vírus nas cidades levanta a preocupação do retorno do ciclo urbano, ou seja, transmissão do vírus da febre amarela pelo Aedes aegypti. “Por isso a importância de estudos de vigilância epidemiológica e da manutenção de uma boa cobertura vacinal a fim de barrar epidemias”, diz.

Outro fator levado em conta nos modelos preditivos de arboviroses são as mudanças climáticas e o avanço das cidades em áreas antes preservadas. “Temos alguns casos ativos de febre amarela no Sul do país, nos estados do Paraná e Santa Catarina, tanto em primatas não humanos quanto em humanos. Algo que não costumava acontecer em décadas anteriores”, afirma Nogueira.

No continente africano – onde a febre amarela surgiu e de onde veio transportada séculos depois para as Américas – a doença ocorre em maior número de casos na África Subsaariana, constituindo um grande problema de saúde pública, com surtos periódicos e imprevisíveis de febre amarela urbana.

Já nas Américas, conforme os pesquisadores destacam, a abrangência da febre amarela tem sido relatada do norte do Panamá até a região nordeste da Argentina. Embora nos últimos anos a maioria dos casos tenha sido relatada na região da Bacia Amazônica – durante a estação chuvosa e tendo os mosquitos Haemagogus como principal vetor – tem se registrado um aumento de casos reportados de infecção pelo vírus silvestre com surtos no Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil.

O artigo Re-emergence of yellow fever in the neotropics – quo vadis? (doi: 10.1042/ETLS20200187), de Livia Sacchetto; Betania P. Drumond; Barbara A. Han; Mauricio L. Nogueira e Nikos Vasilakis, pode ser lido em https://portlandpress.com/emergtoplifesci/article/4/4/411/227095/Re-emergence-of-yellow-fever-in-the-neotropics-quo.
 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.