Dificuldades no controle da pandemia aumentaram transmissão de bactéria resistente em ambiente hospitalar

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O elevado número de casos graves nos picos da pandemia de covid-19 provocou um colapso no sistema de saúde. Entre as principais dificuldades enfrentadas estavam a superlotação das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), alta carga de trabalho para os profissionais de saúde, falta de profissionais experientes no atendimento em UTI, aumento do uso de antimicrobianos e ausência de recursos (medicamentos e insumos). Esse cenário, de acordo com estudo feito por pesquisadores da USP, contribuiu para o aumento do número de pacientes com doença causada por Klebsiella pneumoniae, bactéria extensivamente resistente ao uso dos antibióticos. Essa conclusão foi obtida a partir da análise de amostras de sangue, secreção traqueal, urina e outros fluidos coletadas de 26 pacientes positivos para a bactéria e que estavam internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP entre setembro e novembro de 2020, que corresponde ao primeiro pico de casos da covid-19 no Brasil.

Os casos foram confirmados nas UTIs de covid-19, na UTI de pacientes sem covid-19 ou nas enfermarias clínicas e cirúrgicas. “Observamos um aumento expressivo dos casos de Klebsiella pneumoniae extensivamente resistente nas UTIs que foram dedicadas ao atendimento da covid-19. Ao analisar amostras de outros locais, como enfermarias, por exemplo, os casos diminuem”, conta o médico infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HCFMRP e um dos coordenadores do estudo, Gilberto Gambero Gaspar.

A pesquisa analisou três vertentes importantes, segundo Gaspar, a questão epidemiológica a partir dos casos clínicos e da cadeia de transmissão, estudos microbiológicos e de suscetibilidade a drogas, e análises moleculares através do sequenciamento completo do genoma das bactérias; “tudo para tentar entender um pouco mais da transmissão”, explica o infectologista.

Transmissão cruzada e mortalidade

Os pesquisadores apontam que, possivelmente, são resultado da transmissão cruzada, contaminação entre pessoas, de superfície e entre objetos e pessoas, durante a pandemia. E, entre as possíveis causas, a alta sobrecarga dos pacientes com ventilação mecânica na UTI, necessidade de a equipe de saúde realizar manobras para evitar a baixa oxigenação no sangue (pronação, que significa deitar paciente de barriga para baixo), alta carga de trabalho dos profissionais da saúde e pacientes em estado extremamente crítico.

Outro destaque do estudo apontado pelos pesquisadores é o índice de mortalidade de 30,7% entre os infectados analisados no estudo, e o fato de 80% dos pacientes que morreram terem ao menos uma comorbidade. “Isso chamou muito a atenção, pois mostra a dificuldade de tratamento, ou seja, temos pouco arsenal terapêutico com eficácia considerada boa para esses casos, o que leva o paciente a um tratamento empírico, que é o uso inicial de antimicrobianos baseado em bactérias mais prováveis antes do diagnóstico microbiano ser finalizado”, afirma o médico.

Ainda de acordo com Gilberto, os resultados reforçam a importância das práticas de higienização das mãos, dos programas de limpeza do ambiente e do uso racional de antimicrobianos. “No cenário da pandemia, observamos o uso abusivo de antimicrobianos, muitas vezes pela dificuldade de diferenciação diagnóstica entre a covid-19 grave e um quadro de pneumonia bacteriana associada”, finaliza.

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Fonte: Jornal da USP

USP em Ribeirão Preto busca homens saudáveis e hipertensos para estudo de sequela cardiovascular pós-covid

Os voluntários participarão de três dias de avaliações presenciais com teste de esforço cardiovascular, eletrocardiograma, equilíbrio, força muscular e exames laboratoriais

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP buscam voluntários para estudos que vão investigar se a covid-19 traz consequências tardias ao controle autonômico cardiovascular em homens saudáveis e hipertensos.

Os voluntários do grupo de homens saudáveis devem ter entre 35 e 45 anos, ter se recuperado da covid-19 de seis a 24 meses atrás, não ser tabagista, sem diagnóstico de doenças crônicas (diabete, pressão alta, obesidade, asma, entre outros) e não ser praticante regular de atividades físicas.

Já para o grupo de homens hipertensos, os voluntários devem ter entre 35 e 55 anos, ter se recuperado da covid-19 de seis a 24 meses atrás, não ser tabagista, ter diagnóstico apenas de hipertensão e não praticar atividades físicas regulares.

Os voluntários elegíveis serão chamados para três dias de avaliações presenciais com teste de esforço cardiovascular, eletrocardiograma, equilíbrio, força muscular e exames laboratoriais.  Os interessados dos dois grupos devem fazer a pré-inscrição pelos contatos de telefone (16) 3315-0742, de WhatApp (16) 98139-2868 ou de e-mails: ana.catarine.oliveira@usp.br ou naiara.chinellato@usp.br.

Os estudos Sars-cov-2 e efeitos tardios sobre parâmetros autonômicos cardiovasculares e consequências da sars-covid-19 sobre o controle autonômico cardiovascular em pacientes hipertensos são realizados pelas mestrandas Ana Catarine Veiga e Naiara Chinellato, sob orientação do professor Hugo Celso Dutra de Souza.

Mais informações: (16) 3315-0742, WhatApp (16) 98139-2868 ou e-mails: ana.catarine.oliveira@usp.br ou naiara.chinellato

Fonte: FMRP/USP

Resultados neurológicos a longo prazo do COVID-19

Publicado artigo na Nature Medicine intitulado “Resultados neurológicos a longo prazo do COVID-19”.

Foram utilizados os bancos de dados nacionais de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA

Resumo: As manifestações neurológicas da COVID-19 aguda são bem caracterizadas, mas uma avaliação abrangente das sequelas neurológicas pós-aguda em 1 ano não foi realizada. Aqui usamos os bancos de dados nacionais de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA para construir uma coorte de 154.068 indivíduos com COVID-19, 5.638.795 controles contemporâneos e 5.859.621 controles históricos; usamos ponderação de probabilidade inversa para equilibrar as coortes e estimar riscos e cargas de distúrbios neurológicos incidentes aos 12 meses após a infecção aguda por SARS-CoV-2. Nossos resultados mostram que na fase pós-aguda do COVID-19, houve aumento do risco de uma série de sequelas neurológicas incidentes, incluindo acidente vascular cerebral isquêmico e hemorrágico, distúrbios de cognição e memória, distúrbios do sistema nervoso periférico, distúrbios episódicos (por exemplo, enxaqueca e convulsões) , distúrbios extrapiramidais e do movimento, distúrbios de saúde mental, distúrbios musculoesqueléticos, distúrbios sensoriais, síndrome de Guillain-Barré e encefalite ou encefalopatia. Estimamos que a taxa de risco de qualquer sequela neurológica foi de 1,42 (intervalos de confiança de 95% 1,38, 1,47) e carga 70,69 (intervalos de confiança de 95% 63,54, 78,01) por 1.000 pessoas em 12 meses. Os riscos e encargos foram elevados mesmo em pessoas que não necessitaram de hospitalização durante a COVID-19 aguda. As limitações incluem uma coorte composta principalmente por homens brancos. Em conjunto, nossos resultados fornecem evidências de aumento do risco de distúrbios neurológicos de longo prazo em pessoas que tiveram COVID-19. Estimamos que a taxa de risco de qualquer sequela neurológica foi de 1,42 (intervalos de confiança de 95% 1,38, 1,47) e carga 70,69 (intervalos de confiança de 95% 63,54, 78,01) por 1.000 pessoas em 12 meses. Os riscos e encargos foram elevados mesmo em pessoas que não necessitaram de hospitalização durante a COVID-19 aguda. As limitações incluem uma coorte composta principalmente por homens brancos. Em conjunto, nossos resultados fornecem evidências de aumento do risco de distúrbios neurológicos de longo prazo em pessoas que tiveram COVID-19. Estimamos que a taxa de risco de qualquer sequela neurológica foi de 1,42 (intervalos de confiança de 95% 1,38, 1,47) e carga 70,69 (intervalos de confiança de 95% 63,54, 78,01) por 1.000 pessoas em 12 meses. Os riscos e encargos foram elevados mesmo em pessoas que não necessitaram de hospitalização durante a COVID-19 aguda. As limitações incluem uma coorte composta principalmente por homens brancos. Em conjunto, nossos resultados fornecem evidências de aumento do risco de distúrbios neurológicos de longo prazo em pessoas que tiveram COVID-19.

A COVID longa – o termo abrangente que descreve a constelação de sequelas pós-aguda após a infecção por SARS-CoV-2 – pode envolver uma ampla gama de disfunção de órgãos extrapulmonares 1 incluindo várias anormalidades neurológicas estruturais 2 . Até o momento, a maioria dos estudos examinando distúrbios neurológicos clínicos pós-agudos de COVID-19 foi limitada a pessoas que foram hospitalizadas durante a fase aguda de COVID-19, e todos os estudos tiveram duração de acompanhamento inferior a 6 meses com uma seleção estreita de resultados neurológicos 3 , 4 , 5 , 6 , 7 , 8. Uma avaliação abrangente dos resultados neurológicos pós-agudos do COVID-19 em 12 meses é necessária, mas ainda não foi realizada. Estudos de desfechos neurológicos pós-agudos da COVID-19 em todo o espectro de cuidados da fase aguda da doença (não hospitalizados, hospitalizados e internados em terapia intensiva) também não estão disponíveis. Abordar essa lacuna de conhecimento é importante para ajudar a orientar as estratégias de atendimento pós-COVID-19 e o planejamento da capacidade do sistema de saúde.

Aqui, aproveitamos a amplitude e a profundidade dos bancos de dados nacionais de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA para construir uma coorte de 154.068 pessoas que sobreviveram aos primeiros 30 dias de COVID-19 e dois grupos de controle: uma coorte contemporânea composta por 5.638.795 usuários do Departamento dos EUA do Veterans Health Care System (VHA) sem evidência de infecção por SARS-CoV-2 e uma coorte histórica (anterior à pandemia global de COVID-19) consistindo de 5.859.621 usuários de VHA durante 2017. Empregamos um desenho de estudo observacional longitudinal e usamos o inverso ponderação de probabilidade para equilibrar as coortes e estimou os riscos e encargos em 12 meses de um conjunto de resultados neurológicos pré-especificados na coorte geral e por ambiente de atendimento da fase aguda do COVID-19 (não hospitalizado, hospitalizado e internado em terapia intensiva).

Resultados

Havia 154.068, 5.638.795 e 5.859.621 participantes no COVID-19, o controle contemporâneo e os grupos de controle histórico, respectivamente (Fig. 1 ). O tempo médio de acompanhamento nos grupos COVID-19, controle contemporâneo e controle histórico foi de 408 (intervalo interquartil: 378–500), 409 (379–505) e 409 (379–504) dias, respectivamente. Os grupos COVID-19, controle contemporâneo e controle histórico tiveram 185.399, 6.808.464 e 7.071.123 pessoas-anos de acompanhamento, respectivamente; total correspondendo a 14.064.985 pessoas-anos de seguimento.

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Fonte: Nature

Estudo internacional identifica três compostos naturais capazes de impedir a replicação do coronavírus

Compostos identificados por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e da Alemanha conseguiram impedir mais da metade da replicação viral induzida pela proteína PLpro, um alvo terapêutico ainda pouco explorado.


Laboratório Cell Culture Facility for Vector and Animal Research do Departamento de Parasitologia do ICB-USP, onde foram conduzidos parte dos estudos.

Em parceria com pesquisadores da Universidade de Hamburgo e do Deutsches Elektronen-Synchrotron (DESY), ambos da Alemanha, o laboratório Unit for Drug Discovery do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), coordenado pelo Prof. Carsten Wrenger, identificou três possíveis compostos para o tratamento da covid-19. Trata-se de compostos naturais selecionados em uma triagem com 500 fármacos, que se mostraram promissores em inibir a proteína PLpro – uma das enzimas responsáveis pela proliferação do SARS-CoV-2.

Publicada na Communications Biology, revista do grupo Nature, a pesquisa mostrou que os compostos conseguiram inibir a ação dessa enzima entre 50% a 70%. Os testes foram realizados em células VERO e comparados com um grupo de células que não recebeu os compostos. VERO é uma célula de macacos que possui similaridades com a célula humana, e que se expande e replica com mais velocidade.

“Ao inserirmos os compostos nas células infectadas, constatamos que eles impediram a replicação do coronavírus ao atingir a PLpro, que tem a capacidade de inativar as células do sistema imunológico e que podem levar a casos graves da doença. Como um percentual considerável dos vírus não conseguiu se replicar, as partículas virais infecciosas foram eliminadas”, explica Edmarcia Elisa de Souza, pós-doutoranda do ICB-USP. “Vale ressaltar que os compostos não apresentaram toxicidade. Ou seja, não houve dano à integridade das células, principalmente nas concentrações baixas às quais os compostos apresentaram atividade antiviral”, complementa.

Novo alvo terapêutico – A descoberta deste alvo terapêutico é muito relevante, pois trata-se de uma alternativa ao que vem sendo feito na ciência. “Se você buscar na literatura, você vai encontrar pouca coisa sobre a PLpro, então todo novo conhecimento sobre ela é importante. Saber que é possível inibir a replicação do SARS-CoV-2 por meio dela é uma grande descoberta porque a maioria dos estudos para tratamentos da covid-19 tem como alvo as proteínas Spike e 3CL. Conseguimos mostrar que existem mais opções caso esses estudos não avancem”, reforça Edmarcia.

O próximo passo é fazer testes em modelos animais para avaliar melhor a eficácia dos três compostos, e depois avançar para os testes clínicos. Caso os testes sejam bem-sucedidos, será a primeira utilização de um novo leque de moléculas. “Os compostos foram isolados da natureza. Não há nenhum registro sobre a utilização deles a não ser em pesquisas primárias. A eficácia deles abre a possibilidade para novas terapias”.

Seleção de compostos – No total, foram avaliados seis compostos, que foram selecionados inicialmente pela equipe de pesquisadores da Alemanha. “Nossos colaboradores na Alemanha observaram o grau de interação entre os compostos e a PLpro. Isso foi feito por meio de cristalografia de raio-x, um método inovador e ainda pouco difundido”.

A cristalografia permite fundir o composto à proteína e observar se pequenos cristais foram produzidos nessa união. Cristais esses que não poderiam ser vistos à luz dos microscópios tradicionais. “Analisando os cristais conseguimos produzir modelos tridimensionais das estruturas para identificar se elas se ligam e onde isso acontece. Quanto mais pontos de ligação entre elas, maior a afinidade”, afirma o Prof. Christian Betzel, líder do estudo pela Universidade de Hamburgo e professor visitante do ICB-USP.

A eficácia dos três compostos contra o SARS-CoV-2 foram posteriormente analisadas em células VERO infectadas no BSL3 Cell Culture Facility for Vector and Animal Research do Departamento de Parasitologia do ICB-USP. Trata-se de um laboratório de nível 3 de Biossegurança (NB3), que confere proteção aos pesquisadores que trabalham com o cultivo de micro-organismos que oferecem risco à saúde humana, como o coronavírus.

Fonte: ICB/USP

Produção científica sobre covid-19 afeta o equilíbrio da geração de conhecimento


Rodrigo Cunha


Em mais de dois anos de pandemia, cerca de 500 mil estudos sobre temas relacionados à Covid-19 foram publicados na forma de artigos científicos ou de suas versões preliminares, os preprints, disseminados em repositórios públicos. Segundo um levantamento divulgado em abril por Philip Shapira, do Instituto de Pesquisa em Inovação da Universidade de Manchester, no Reino Unido, esse volume formidável de informação respondeu por quase 4% da produção científica do mundo entre 2020 e abril deste ano e alterou o equilíbrio da geração de conhecimento. Disponível na plataforma bioRxiv, o trabalho analisou dados da base Dimensions e observou que, na área da virologia, a proporção de artigos acerca do Sars-CoV-2 saltou de 3,1% do total em 2019 para 37,1% neste ano – em moléstias infecciosas, o crescimento foi de 0,8% para 23,8%. A influência se estendeu também a disciplinas não vinculadas à área médica – a Covid-19 foi o assunto de 6,4% da literatura em sociologia e direito em 2021.

As revistas científicas aceleraram seus processos de avaliação de manuscritos a fim de dar respostas rápidas para a emergência sanitária e muitas delas obtiveram um desempenho excepcional. A mais recente edição do Journal Citation Reports (JCR), relatório da empresa Clarivate que avalia anualmente o impacto e a visibili-dade de 21 mil periódicos do mundo, mostrou que um grupo de revistas da área médica multiplicou sua influência e teve fator de impacto superior a 100 em 2021. Significa dizer que, no ano passado, os artigos publicados por esses títulos no biênio anterior foram citados, em média, mais de uma centena de vezes em outros trabalhos, um indício de reconhecimento de sua contribuição. Os periódicos que se destacaram foram Journal of the American Medical Association, The Lancet, Lancet Respiratory Medicine, Nature Reviews Drug Discovery, Nature Reviews Immunology, Nature Reviews Molecular Cell Biology e New England Journal of Medicine (NEJM).

A performance mais impressionante foi a da britânica The Lancet. Seu fator de impacto avançou de 79,3 em 2020 para 202,7 em 2021, assumindo a liderança no ranking do JCR na categoria medicina geral e interna pela primeira vez. Ela teve 3 dos 10 artigos sobre Covid-19 mais citados em 2021, que descreveram as características clínicas dos primeiros pacientes internados com o novo coronavírus na cidade chinesa de Wuhan, em 2019, os fatores de risco para mortalidade e os dados epidemiológicos do primeiro surto da pandemia. Desde que o JCR começou a ser produzido, há 45 anos, o primeiro lugar em medicina geral e interna sempre coubera ao NEJM, dos Estados Unidos. Apesar de ter caído para a segunda colocação, o fator de impacto dessa revista cresceu de 91,2 em 2020 para 176,1 no ano passado.

O aumento no volume e na repercussão de publicações sobre Covid-19 também fez com que a prestigiada revista Nature fosse a primeira revista a superar a marca de 1 milhão de citações ao longo de um ano, obtida em 2021. “O novo coronavírus causou milhões de mortes, sobrecarregou sistemas de saúde em todo o mundo e forçou o isolamento em comunidades acostumadas a viver em um mundo global e conectado”, afirmou Nandita Quaderi, editora-chefe da base de dados Web of Science, no lançamento do JCR. “Começamos agora a entender alguns aspectos positivos, como a colaboração científica sem precedentes, a velocidade acelerada de inovação e a descoberta de terapias e vacinas.”
A mobilização envolveu a maioria dos países do mundo. De acordo com a análise de Shapira, a Itália, uma das nações que mais sofreram com a primeira onda da pandemia, foi proporcionalmente a que mais se engajou: 4,15% de todos os artigos publicados em revistas indexadas por cientistas italianos entre 2019 e 2022 tratavam do novo coronavírus. No Reino Unido, o índice chegou a 3,37%, nos Estados Unidos, a 2,9%, e na China a 1,12%.

O Brasil, com 2,62% de sua produção vinculada à doença, ficou em um mesmo pelotão de países como Canadá (2,68%) e Austrália (2,56%). “Durante a pandemia, o número de artigos submetidos a revistas do Brasil da biblioteca SciELO teve um aumento de 23%”, observa Abel Packer, coordenador da coleção, que reúne 315 periódicos de acesso aberto do país em diversas áreas do conhecimento. “Na quarentena, muitos pesquisadores aproveitaram o isolamento forçado para escrever os manuscritos que haviam planejado, gerando trabalho extra para os editores”, afirma. Entre 2020 e julho de 2022, a biblioteca SciELO publicou quase 60 mil documentos científicos, entre artigos originais, de revisão e editoriais. Desse total, 3.773, o equivalente a pouco mais de 6%, eram sobre Covid-19.

Revistas de ciências da saúde dedicaram 11% de seu conteúdo ao assunto. O tema mobilizou também outras disciplinas. No rol dos 10 títulos da biblioteca SciELO que mais trataram da emergência sanitária, um dos destaques foi a Revista de Administração Pública, editada desde 1967 pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Entre 2020 e julho de 2022, publicou 60 artigos a respeito de temas relacionados à pandemia, um terço de sua produção total. O espaço aberto pelo periódico da FGV só perdeu, proporcionalmente, para o do Brazilian Journal of Infectious Diseases, com 63 artigos sobre a doença entre os 179 publicados entre 2020 e 2022. Na lista dos 10 periódicos que mais se engajaram (ver quadro), há títulos da saúde e campos como trabalho, educação, políticas públicas e interdisciplinar.

Uma tendência curiosa foi observada no rol dos artigos de revistas do Brasil que receberam mais citações: boa parte deles tratava de efeitos da pandemia na saúde mental. Na lista, há estudos sobre os níveis de estresse, depressão e ansiedade em meio ao isolamento social; a relação entre traços da personalidade e prevenção da doença; e os impactos na saúde mental e no desenvolvimento das crianças brasileiras. O paper de maior repercussão, com mais de 500 citações na base de dados Web of Science, foi um editorial do Brazilian Journal of Psychiatry intitulado “Pandemia de medo e Covid-19: Impacto na saúde mental e possíveis estratégias”, que analisou a literatura científica disponível até o início de 2020 a respeito do impacto de epidemias e desastres naturais na saúde mental das pessoas e enumerou, com base nessas evidências, recomendações para governos, hospitais e centros de referência, grupos de apoio e indivíduos enfrentarem o problema.

O autor principal do estudo, o psicólogo Felipe Ornell, conta que a ideia de fazer o trabalho surgiu em fevereiro de 2020, antes mesmo do surgimento dos primeiros casos no país. “Conversei com o psiquiatra Felix Kessler, que havia sido meu coorientador de mestrado, e observamos que havia um pânico disseminado entre as pessoas. Isso se manifestava, inicialmente, em atitudes como o impulso de encher o carrinho do supermercado com papel higiênico para estocar em casa. Inúmeros tipos de medo acumulados gerariam uma carga de estresse, que cronicamente agravaria ou desencadearia sintomas e transtornos mentais”, afirma Ornell, que trabalha no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e faz doutorado em psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

“Provavelmente isso nunca havia acontecido em escala tão grande e nossa hipótese é de que esse medo geraria uma carga de problemas de saúde mental, ou melhor, uma pandemia de medo dentro de uma pandemia biológica.” Segundo ele, o fato de o artigo ter sido aceito e publicado rapidamente – no mês seguinte, em março – foi fundamental para ele se tornar referência em estudos subsequentes. “O editorial foi um dos primeiros a tratar do tema, lançou várias hipóteses, grande parte delas exploradas e confirmadas posteriormente.” O trabalho, que figura entre os cinco mais lidos do site do Brazilian Journal of Psychiatry, ajudou a elevar o fator de impacto da revista, que foi de 2,46 em 2020 para 6,3 em 2022.
Naturalmente, apenas uma fração dos estudos fez diferença no combate à pandemia. Uma análise feita por uma equipe da Universidade Northwestern, da Escola de Administração Kellogg e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, mostrou que dois terços dos autores que publicaram sobre a Covid-19 em 2020 não tinham experiência com temas relacionados à doença. Por meio de uma ferramenta analítica capaz de medir o grau de novidade de um artigo, o grupo descobriu que, quanto mais um pesquisador se afastava de sua área habitual de especialização, menor era o impacto de seus trabalhos envolvendo o novo coronavírus.

É certo que, após o crescimento explosivo em 2020 e 2021, a proporção de novos estudos acerca da Covid-19 começou a perder fôlego neste ano. Segundo a análise de Philip Shapira, a parcela de artigos a respeito da doença ainda aumentou nos quatro primeiros meses deste ano, mas em velocidade mais lenta do que a observada em 2021. E em 70 subáreas, como farmacologia, medicina de emergência e sistema respiratório, a proporção já sofreu uma redução. “Agora que muitas das lacunas de conhecimento clínico e epidemiológico foram preenchidas, o foco da maioria dos pesquisadores está retornando para seus interesses especializados”, disse à revista Science Alimuddin Zumla, especialista em moléstias infecciosas da University College de Londres. Segundo ele, isso é uma boa notícia. “Existem muitas outras doenças prioritárias que foram negligenciadas durante a era da Covid-19 e elas precisam de atenção.” Um estudo publicado em fevereiro na PLOS ONE apontou um deslocamento do financiamento da pesquisa para o novo coronavírus e, paralelamente, uma redução do investimento em ensaios clínicos e novos tratamentos, interrompidos por força da emergência sanitária – a única exceção foram os testes clínicos de imunizantes contra o Sars-CoV-2.

“É necessário reorientar os incentivos para a ciência básica e áreas de pesquisa biomédica negligenciadas ou temporariamente abandonadas”, escreveram Massimo Riccaboni, da Escola de Estudos Avançados de Lucca, na Itália, e Luca Verginer, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, os autores do estudo. Para Shapira, um fruto perene da mobilização é o aprendizado que os cientistas acumularam. “O enfrentamento da doença provavelmente treinou todo um conjunto de pesquisadores e os ensinou a pensar pandemias a partir de aspectos médicos e de saúde pública. Houve um investimento em capital humano”, disse ele à Science.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.
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Em testes pré-clínicos, fármaco mostra potencial para combater inflamação exagerada associada à COVID19. O trabalho foi conduzido por cientistas da USP

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Experimentos com animais e com células humanas feitos na Universidade de São Paulo (USP) sugerem que a niclosamida, um vermífugo já amplamente utilizado, teria ação antiviral e poderia inibir a resposta inflamatória exacerbada que muitas vezes leva à morte pacientes com a forma grave da COVID-19.

Novos estudos ainda são necessários para descobrir se os efeitos, descritos em artigo na Science Advances, se confirmam em humanos. E, segundo os autores, para isso será necessário desenvolver uma nova formulação da droga, pois a disponível atualmente nas farmácias – de administração oral – não teria efeito nos pulmões.

“O comprimido contendo niclosamida comercialmente disponível não é absorvido no estômago, por isso ele funciona para vermes intestinais. Mas não vai funcionar para COVID-19 se tomado por via oral. Para contornar esse problema, será necessário desenvolver uma nova formulação da droga, que chegue diretamente aos pulmões”, explica Dario Zamboni, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e integrante do Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID) – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP. A investigação também contou com financiamento por meio de outros dois projetos (19/11342-6 e 20/04964-8).

De acordo com Zamboni, os efeitos anti-inflamatórios da niclosamida observados no estudo se devem ao bloqueio de um mecanismo imunológico conhecido como inflamassoma – um complexo proteico presente no interior das células de defesa. Quando essa maquinaria celular é acionada, moléculas pró-inflamatórias conhecidas como citocinas passam a ser produzidas para avisar o sistema imune sobre a necessidade de enviar mais células de defesa ao local da infecção.

Em um trabalho anterior, o grupo da FMRP-USP havia mostrado que, em pacientes com a forma grave da COVID-19, o inflamassoma costuma estar mais ativado que o normal e permanece dessa forma mesmo quando o vírus já foi eliminado do organismo, causando a resposta inflamatória sistêmica e exagerada (tempestade de citocinas) lesiva para o pulmão e demais órgãos (leia mais em: agencia.fapesp.br/39333/).

O pesquisador ressalta, porém, que a niclosamida não deve ser usada como um tratamento profilático, ou seja, para supostamente prevenir a inflamação exacerbada. “Um pouco de inflamação é importante para combater infecções por microrganismos patogênicos. O problema é quando a resposta inflamatória é exagerada, como em alguns casos mais graves da COVID-19. Portanto, não estamos sugerindo o uso profilático da droga, pois pode não contribuir e até mesmo prejudicar a recuperação dos pacientes que não apresentam quadros graves de COVID-19.”

Limpeza celular

Há muitos anos no mercado, a niclosamida tem sido indicada principalmente para tratar infecções por tênia. Recentemente, a droga tem despertado o interesse de pesquisadores por seu efeito antiviral.

No estudo publicado agora na Science Advances, o grupo da USP descreve que a niclosamida promove um processo de limpeza celular conhecido como autofagia. Quando a autofagia é induzida, a célula destrói organelas velhas, recicla componentes celulares e desativa o inflamassoma. Esse processo também inibe a replicação do SARS-CoV-2 dentro da célula.

A pesquisa começou com a triagem de 2.560 compostos, muitos deles já utilizados em humanos, na tentativa de identificar uma substância capaz de modular a ação do inflamassoma. Para isso, foram feitos testes in vitro nos quais células de defesa humanas foram infectadas com a bactéria Legionella, conhecida por ativar esse complexo proteico inflamatório.

Depois de selecionar as três drogas mais promissoras, os pesquisadores realizaram testes em camundongos infectados com SARS-CoV-2 e em glóbulos brancos presentes no sangue de pacientes com COVID-19. Nos experimentos, eles também verificaram a ação dessas drogas nos macrófagos e monócitos, células que atuam na linha de frente do sistema imune e onde, na COVID-19, a ativação do inflamassoma ocorre principalmente. A niclosamida foi a que apresentou o melhor resultado.

Para verificar a ação antiviral, os pesquisadores realizaram experimentos com monócitos infectados in vitro com o SARS-CoV-2.

“A atividade antiviral de niclosamida já era conhecida, por isso a droga já está na fase 1 de ensaios clínicos em pacientes com COVID-19. A nossa descoberta – de que a droga induz autofagia e inibe inflamassoma – pode fornecer informações essenciais para a compreensão do efeito imunomodulador desse fármaco altamente promissor”, avalia.

Efeito em outras doenças

A descoberta de uma droga capaz de inibir o inflamassoma abre perspectivas de novas terapias para uma série de outras condições de base inflamatória. Isso porque, além da COVID-19, o inflamassoma também está envolvido em doenças autoimunes, neurodegenerativas, gripe, alguns tipos de câncer e de doenças infecciosas, incluindo zika, chikungunya e febre do Mayaro.

“Dessa forma, embora o estudo tenha sido feito para COVID-19, a niclosamida também funcionaria, em tese, para inibir o inflamassoma nessas outras doenças. Esses resultados abrem possibilidades para uma série de novas pesquisas”, afirma.

O artigo Identification of immunomodulatory drugs that inhibit multiple inflammasomes and impair SARS-CoV-2 infection pode ser lido em: www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abo5400.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Vacina contra covid-19 desenvolvida por grupos da UFMG, USP e Fiocruz está pronta para testes em humanos

Foto: Reprodução/Pixabay

Resultados dos experimentos com animais acabam de ser divulgados na “Nature Communications”. Pesquisadores aguardam aval da Anvisa para dar início ao ensaio clínico

Karina Toledo/Agência Fapesp – Uma nova vacina contra a covid-19 desenvolvida no Brasil pode começar a ser testada em humanos ainda este ano. O imunizante apresentou bons resultados nos estudos com animais, que foram divulgados este mês na revista Nature Communications. Os cientistas já receberam autorização da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para dar início ao ensaio clínico e aguardam, agora, o sinal verde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“Já entregamos à Anvisa toda a documentação necessária. A expectativa é que a resposta saia nas próximas semanas. Estamos prontos para começar”, conta à Agência Fapesp Ricardo Tostes Gazzinelli, coordenador do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador sênior da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Para desenvolver a formulação vacinal, o grupo coordenado por Gazzinelli fundiu duas diferentes proteínas do sars-cov-2: a N (do nucleocapsídeo, estrutura que abriga o material genético do vírus) e uma porção da S (espícula ou Spike) usada pelo patógeno para se ligar e invadir a célula humana. A molécula quimérica resultante recebeu o nome de SpiN. A estratégia teve o objetivo de induzir no organismo a chamada resposta imune celular, ou seja, a produção de células de defesa (linfócitos T) especializadas em reconhecer e matar o coronavírus. Em tese, esse tipo de proteção permaneceria eficaz mesmo diante do surgimento de novas variantes.

“As vacinas para covid-19 atualmente em uso têm como objetivo principal induzir à produção de anticorpos neutralizantes contra a proteína S, que impedem o vírus de infectar as células humanas. Essa é a chamada resposta imune humoral. Mas, à medida que foram surgindo variantes com muitas mutações na proteína S, os anticorpos foram perdendo a capacidade de reconhecer esse antígeno. Já a proteína N se manteve mais conservada nas novas cepas”, explica a doutoranda Julia Castro, que conduziu os ensaios pré-clínicos sob a orientação de Gazzinelli.

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Fonte: Jornal da USP

Cigarro eletrônico causa doença pulmonar denominada Evali. Substâncias presentes no vapor produzido pelo produto podem provocar lesões similares às da Covid-19


Imagem de raio X e tomografia computadorizada de paciente com lesões (setas brancas e pretas) provocadas pelo uso de cigarros eletrônicos. Sociedade de Radiologia da América do Norte


Os primeiros casos de uma lesão pulmonar aguda que acabaria associada ao consumo de cigarros eletrônicos começaram a aparecer nos Estados Unidos em abril de 2019. Foi uma surpresa para os médicos. Jovens na faixa de 20 anos, parte deles sem histórico prévio de problemas pulmonares, chegavam aos hospitais norte-americanos acometidos de falta de ar, tosse e dor no peito, muitas vezes associadas a dor abdominal, náusea, vômito, diarreia, fadiga, febre e perda de peso. Em meio a diferentes sintomas, um ponto em comum: todos eram usuários de vapes. Os sintomas haviam se desenvolvido ao longo das semanas anteriores e, em certos casos, em apenas alguns dias. Parte desses pacientes teve que ser transferida para Unidades de Terapia Intensiva; em agosto daquele ano, houve as primeiras mortes.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) começaram, então, a monitorar as ocorrências dessa nova doença, que foi denominada Evali (E-cigarette or Vaping product use-Associated Lung Injury). Por ora, apenas um grande surto de Evali foi verificado. De acordo com dados do CDC, entre o início de 2019 e 18 de fevereiro de 2020, 2.807 hospitalizações e 68 mortes nos 50 estados norte-americanos e territórios foram atribuídas à doença. Mais da metade dos óbitos ocorreu em pacientes obesos ou com algum problema prévio de saúde. Em fevereiro de 2020 o órgão parou de coletar dados dos estados devido à diminuição da incidência de casos e ao surgimento da pandemia de Covid-19. Os sintomas e lesões pulmonares da Evali são parecidos com os da Covid-19.

No Reino Unido, outro grande mercado para os cigarros eletrônicos, houve, entre maio de 2016 e janeiro de 2021, três óbitos e 231 registros de reações adversas associadas ao uso desses dispositivos. As informações são de reportagem publicada no jornal britânico The Observer em agosto deste ano.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) contabiliza sete casos de Evali. Para os médicos, esse número certamente não reflete a realidade, visto que a doença não é de notificação compulsória no país. Uma solicitação da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) para que a Evali fosse de notificação obrigatória não foi atendida pela agência. “A Anvisa basicamente respondeu que a notificação não é compulsória tendo em vista que a Evali é doença que acomete usuários de um produto cuja comercialização é proibida”, relata o coordenador da Comissão Científica de Tabagismo da SBPT, o pneumologista Paulo Corrêa.
Não há um teste ou exame específico para detectar a Evali. O diagnóstico é feito por exclusão de outras doenças pulmonares e pela análise do histórico de uso de cigarros eletrônicos do paciente. Um caso suspeito da doença foi atendido pelo pneumologista Felipe Marques, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. A ocorrência foi descrita em artigo publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia na edição de maio/junho de 2021.
Segundo Marques, a paciente era uma mulher de 48 anos com tosse persistente e fadiga. Ela tinha sido tratada com antibióticos, mas não melhorava. Foram feitos testes sorológicos e de RT-PCR para averiguar se a paciente tinha se infectado com o vírus Sars-CoV-2. Os resultados foram negativos. No entanto, quando foi submetida a uma tomografia computadorizada do tórax, a mulher tinha um quadro característico de pneumonia viral provocado pela Covid-19. “Ela apresentava aquele padrão de opacidade que chamamos de vidro fosco”, relata Marques.
Segundo o pneumologista, a paciente era ex-fumante há 21 anos, mas estava fazendo uso de cigarros eletrônicos durante todo o primeiro semestre de 2020. “Tratamos o quadro com anti-inflamatório e pedimos que ela não usasse mais os cigarros eletrônicos; ela começou a melhorar nos primeiros dias”, conta. Um mês depois, a tomografia mostrava uma recuperação quase completa das lesões.
As causas de quadros agudos relacionados ao consumo de vapes, como esse tratado no Brasil, ainda estão sendo estudadas. Mas um artigo científico publicado no periódico The New England Journal of Medicine em fevereiro de 2020 trouxe uma pista importante: a presença de acetato de vitamina E nos fluidos pulmonares de 48 pacientes em uma amostra total de 51 indivíduos diagnosticados com Evali. Em um grupo de controle, composto de 99 pessoas saudáveis, incluindo 18 fumantes de cigarros eletrônicos, a substância não foi encontrada. O trabalho foi coordenado por pesquisadores do CDC.
O acetato de vitamina E é uma substância viscosa utilizada como aditivo de cigarros eletrônicos, em especial os que contêm o canabinoide THC, derivado de plantas do gênero Cannabis. Sua presença também pode ser encontrada em suplementos vitamínicos e em produtos dermatológicos.
“A hipótese de que o acetato de vitamina E causa a doença ainda precisa ser validada”, comenta Marques. “Há muitos outros componentes dos cigarros eletrônicos que podem ser perniciosos quando inalados.”
Outra substância nociva identificada em líquidos de cigarros eletrônicos é o aromatizante diacetil. Ele também está relacionado a uma doença pulmonar aguda: a bronquiolite obliterante. Também conhecida como “pulmão de pipoca”, a bronquiolite obliterante foi documentada em trabalhadores de uma empresa que fabricava pipoca de micro-ondas. Um estudo publicado em 2019 no Canadian Medical Association Journal identificou essa doença em um jovem de 17 anos, fumante de vape. Antes, em 2015, um trabalho que saiu publicado na revista norte-americana Chest Infections já havia diagnosticado a bronquiolite obliterante em usuário de cigarros eletrônicos de 60 anos de idade.
Artigo científico
MEDEIROS, A. K. et al. Diagnóstico diferencial entre lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico e pneumonia por Covid-19. Jornal Brasileiro de Pneumologia. v. 47, n. 3.  2021.
BLOUNT, B. C. et al.  Vitamin E acetate in bronchoalveolar-lavage fluid associated with Evali. New England Journal of Medicine. 20 fev. 2020.
LANDMAN, S. T. et al. Life-threatening bronchiolitis related to electronic cigarette use in a Canadian youth. Canadian Medical Association Journal. 20 nov. 2019.
ATKINS, G. et al. Acute inhalational lung injury related to the use of electronic nicotine delivery system (Ends). Chest Infections. v. 148, n. 4. 1° out. 2015.

Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Método desenvolvido por cientistas do @CaddeProject pode ajudar a prever casos de variantes da COVID19

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Pesquisadores do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE) desenvolveram um método mais rápido e de menor custo para analisar dados sorológicos da população que pode contribuir com a avaliação e a previsão do comportamento epidemiológico da COVID-19.

Os cientistas demonstraram que a metodologia foi capaz de prever a transmissão da variante delta (detectada na Índia em 2020 e originalmente chamada B.1.617.2) no Brasil. Agora buscam validar o método como forma de fazer vigilância na população para novas variantes do SARS-CoV-2 e até mesmo para outros tipos de doença, auxiliando assim na rapidez da resposta.

O grupo usou amostras de bancos de sangue instalados em sete capitais – São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Fortaleza, Curitiba e Belo Horizonte – para medir a quantidade de anticorpos do tipo imunoglobina G (IgG) da população fazendo ensaios de micropartículas de anti-S, ou seja, para detectar anticorpos capazes de se ligar à proteína Spike do coronavírus. Com isso, conseguiu relacionar a proteção da vacina a casos da variante delta e ao nível de mortalidade.

No começo da pandemia, estudos de soroprevalência foram importantes para estimar a proporção de pessoas infectadas. Mas eles acabaram perdendo relevância à medida que quase 100% da população brasileira e de outros países passaram a ter anticorpos contra o SARS-CoV-2, seja por meio da vacinação ou de infecção. Daí a importância de buscar novas formas de analisar o comportamento da doença, com possibilidade de prever número de casos por regiões para formulação de políticas públicas.

“Neste estudo, em vez de calcular a porcentagem da população com anticorpos, que foi quase 100%, analisamos a quantidade de anticorpos no sangue e conseguimos associar o nível deles à morbidade causada pela variante delta. Assim demonstramos o valor de coletar, analisar e compartilhar esse tipo de dado”, explica à Agência FAPESP o primeiro autor do artigo Lewis Buss, pesquisador do Imperial College London (Reino Unido) que foi aluno de pós-graduação no Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Os resultados do estudo, publicado na revista científica Vaccines, demonstraram que, durante a fase de crescimento de casos da variante delta no Brasil, a baixa incidência de registros de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) foi fortemente correlacionada com os níveis de anticorpos medidos em doadores de sangue.

O risco de infecção pela variante demonstrou ser menor em pessoas que já haviam sido infectadas com o SARS-CoV-2 ou vacinadas – a imunidade híbrida (vacina mais infecção prévia) levou a uma proteção mais alta.

“A vacina é muito importante para aumentar a imunidade. Só a infecção não resolve. Vimos no estudo que a quantidade de anticorpos aumenta muito rápido logo após a primeira dose da vacina em cidades que tiveram uma epidemia maior na primeira onda de COVID-19, como Manaus e Fortaleza. Já a segunda dose teve um efeito maior nas capitais com epidemia tardia, como Curitiba e Rio de Janeiro. Como a população já estava mais protegida, isso ajuda a explicar o porquê de a variante delta não ter entrado no Brasil de maneira tão efetiva como vinha acontecendo em outros países”, explica a professora Ester Sabino, da FM-USP, uma das autoras do estudo e responsável pelo CADDE no Brasil.

Sabino esteve à frente do primeiro sequenciamento de SARS-CoV-2 no país, em março de 2020, e dos primeiros casos da variante gama, surgidos em Manaus cerca de um ano depois (leia mais em: agencia.fapesp.br/32637/ e agencia.fapesp.br/35290/).

Por sua trajetória, a professora foi homenageada, dando nome ao Prêmio Ester Sabino para Mulheres Cientistas, concedido neste ano pela primeira vez pelo governo do Estado de São Paulo (leia mais em: agencia.fapesp.br/37931/).

Além de apoiar o CADDE, a FAPESP deu suporte à pesquisa por meio de bolsa para o doutorando Carlos Augusto Prete Júnior, da Escola Politécnica da USP. O trabalho teve apoio também do Instituto Todos pela Saúde.

Marcador

O estudo mostrou que, impulsionada pela vacinação, que começou no Brasil em janeiro de 2021, a quantidade média de anticorpos cresceu 16 vezes durante o período analisado – entre março e novembro daquele ano. Entre os residentes na faixa etária elegível para doação de sangue (15 a 69 anos), a cobertura com a primeira dose atingiu mais de 75% em todas as cidades até o final do período da pesquisa. A cobertura com a segunda dose também foi alta.

“Procuramos um marcador que pudesse facilitar e ser usado de forma rotineira para inferir como estava a proteção da vacina na população. Em epidemias, temos de usar ferramentas simples, que possam dar respostas rápidas. Os testes em toda a população são caros e difíceis de fazer”, complementa Sabino.

Trabalhos anteriores haviam demonstrado que os níveis de anticorpos neutralizantes são altamente preditivos de proteção contra infecção sintomática por SARS-CoV-2. Porém, para detectar esses anticorpos, que efetivamente impedem o vírus de entrar na célula humana, são necessários testes complexos e caros. Nem todos os anti-S são necessariamente neutralizantes, mas neste estudo os pesquisadores detectaram que níveis altos de anti-Spike podem prever uma menor incidência de casos graves provocados por uma nova variante introduzida em uma população soropositiva. Eles usaram testes semiquantitativos, que fornecem uma estimativa da quantidade de anticorpos de um paciente produzidos contra a infecção pelo SARS-CoV-2.

A partir daí, o grupo conduziu diferentes tipos de análises com amostras coletadas em 2021, quando as variantes gamma, delta e ômicron foram sucessivamente substituindo uma a outra. Foram avaliados até que ponto a vacinação e a infecção prévia contribuíram para os níveis de IgG anti-S da população e o grau em que essas variáveis previam a incidência de casos graves de COVID-19 causados pela delta.

Os testes foram realizados em 850 amostras por mês. A partir da segunda semana de cada mês, houve seleção de amostras entre todas as doações ou dentro dos bairros das capitais pesquisadas para obter representatividade. Foram aplicados imunoensaios de micropartículas quimioluminescentes que detectam os anticorpos IgG contra a proteína Spike do SARS-CoV-2. Os dados para as doses de vacina administradas foram retirados do OpenDataSUS.

Para chegar aos números de COVID-19, houve a consulta a três fontes – registros de síndrome respiratória aguda grave e óbitos do SIVEP-Gripe; total de casos confirmados de COVID-19 pelo Ministério da Saúde e a série temporal da positividade do teste SARS-CoV-2 em uma rede de farmácias da cidade de São Paulo.

Foram utilizados ainda metadados de todos os genomas do vírus depositados na plataforma Gisaid entre março de 2020 e o mesmo mês de 2022 nos sete Estados.

Contexto

As capitais analisadas registraram momentos distintos da epidemia. A taxa cumulativa de ataque (inferida por meio de soroprevalência) em dezembro de 2020, antes da segunda onda provocada pela variante gama e ainda sem campanhas de vacinação no Brasil, variou de 20,3%, em Curitiba (PR), a 76,3% em Manaus (AM).

Enquanto todas as cidades tiveram um grande pico dominado por gama em casos e mortes, o período seguinte, com a variante delta, não foi marcado pelas mesmas características, quando a incidência de casos e óbitos foi baixa em Manaus, Fortaleza (CE) e Recife (PE) e caiu em Belo Horizonte (MG) e São Paulo.

Já em relação à ômicron, houve pico variável no número de casos, com crescimento em todas as cidades, mas em relação a mortes a variação foi de 3,7% no período. A exceção foi Fortaleza, onde se observou uma elevação de registros de síndrome respiratória aguda grave atribuíveis à variante.

Por isso, o estudo apontou que os anticorpos adquiridos por meio de infecção e ou vacinação foram suficientemente altos no Brasil para evitar um impacto significativo na saúde pública pela entrada de novas variantes naquele momento.

Os dados do trabalho são abertos e podem ser acessados na plataforma GitHub.

O artigo Predicting SARS-CoV-2 Variant Spread in a Completely Seropositive Population Using Semi-Quantitative Antibody Measurements in Blood Donors pode ser lido em: www.mdpi.com/2076-393X/10/9/1437/htm.
 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Microplástico suspenso no ar pode favorecer disseminação da COVID19

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Existe uma correlação entre a quantidade de microplástico presente no ar e do vírus causador da COVID-19. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) coletaram amostras de ar nos arredores do Hospital das Clínicas (HC) no início deste ano e observaram que os filtros com mais quantidade de microplástico também apresentavam uma carga maior de partículas genômicas de SARS-CoV-2. Os resultados do estudo, publicado na revista Environmental Pollution, sugerem que o vírus pode se ligar ao microplástico suspenso no ar, o que facilitaria sua entrada no corpo humano.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores dispuseram filtros para captar a poluição do ar em três locais próximos ao maior hospital da América Latina (ambiente externo). Ao analisar as amostras, quantificaram as partículas de RNA viral e de poluição suspensas no ar.

“Sabemos que o plástico é um carreador de patógenos e isso não é diferente no caso do SARS-CoV-2. Esse material particulado em suspensão atrai ou é atraído pelo vírus e eles podem permanecer ‘grudados’. Nosso estudo não demonstrou molecularmente essa aproximação, mas provamos que existe uma correlação matemática: onde tinha mais microplástico, tinha mais vírus”, disse Thais Mauad , professora do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina (FM-USP) e coordenadora da investigação.

O estudo foi desenvolvido durante o pós-doutorado de Luís Fernando Amato-Lourenço e recebeu financiamento da FAPESP por meio de dois projetos (19/03397-5 e 19/02898-0).

Como explicam os pesquisadores, o microplástico é gerado durante o longo processo de decomposição do plástico, que pode durar mais de cem anos. Ao longo do tempo, micropartículas se desprendem de cortinas, móveis ou qualquer outro objeto feito de plástico. Por serem muito pequenas, elas ficam em suspensão no ar, onde podem se juntar a outras micropartículas (de poluição e patógenos, por exemplo), podendo ser inaladas.

Em trabalhos anteriores, o grupo já havia demonstrado que é na superfície plástica que os vírus duram mais tempo: 72 horas, no caso do SARS-CoV-2. “O patógeno causador da COVID-19 é altamente transmissível. Nosso estudo sugere que partículas virais podem se ligar ao microplástico suspenso no ar, fazendo com que permaneça mais tempo viável e, por consequência, tenha mais chance de entrar no corpo humano”, explica Mauad.

O material particulado encontrado no ar foi analisado em microscópio de fluorescência. A composição polimérica (diferentes tipos de plástico) foi caracterizada por microespectroscopia de infravermelho. E a carga viral foi quantificada por teste de PCR em tempo real – o mesmo usado no diagnóstico da COVID-19.

Houve resultado positivo para SARS-CoV-2 em 22 das 38 amostras coletadas (57,8%) nos três locais próximos ao Hospital das Clínicas. O poliéster foi o polímero mais frequente, presente em 80% dos casos.

Onipresente

O grupo coordenado por Mauad também já havia demonstrado que, na capital paulista, há mais microplástico em suspensão em ambientes fechados do que em locais abertos. O trabalho, publicado no periódico https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35093355/ Science of The Total Environment, foi o primeiro a investigar a quantidade, a composição química e as características morfológicas de microplásticos no ar externo e interno na megacidade de São Paulo.

Ao disponibilizar 20 coletas de ar na área externa da FM-USP (próxima à movimentada avenida Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, na zona oeste da capital) e 20 amostras retiradas de escritórios no interior do edifício, os pesquisadores constataram que havia maior concentração de microplástico no ambiente interno do que no externo. Vale ressaltar, no entanto, que todas as amostras captadas tinham a presença desse material.

Os pesquisadores também verificaram diferenças na composição das amostras retiradas nos dois ambientes: as fibras de poliéster (100% das amostras), polietileno (59%) e polipropileno (26%) foram os polímeros dominantes em ambientes internos. Já nas áreas ao ar livre as mais presentes foram fibras de poliéster (76%), polietileno (67%) e partículas de polietileno tereftalato (25%).

“Esse resultado já era esperado, pois estudos feitos em outras cidades já mostravam que existe plástico no ar e que ele é mais comum nas áreas internas. Isso acontece porque vivemos em um mundo plastificado. Há plástico dentro de casa nas embalagens, nos móveis, tapetes, cortinas e na roupa. Tudo é sintético e é nesses ambientes onde há menos ventilação”, afirma Amato-Lourenço, atualmente pesquisador da Freie Universität em Berlim (Alemanha).

Materiais plásticos são amplamente utilizados em todo o mundo. No entanto, a sua degradação em fragmentos milimétricos – os microplásticos – tornou-se uma ameaça ambiental global por contaminar o ar, o solo, os ecossistemas aquáticos e também a saúde humana.

Mauad ressalta que os estudos sobre os efeitos do microplástico no organismo ainda são incipientes, pois uma das maiores dificuldades da pesquisa está em evitar o problema de contaminação das amostras. “Ainda estamos engatinhando nesse assunto. Como tem plástico no ar e em todo o lugar, é preciso se certificar de que a amostra não está contaminada”, conta.

Plástico no pulmão

Em artigo publicado ano passado no Journal of Hazardous Materials, o grupo da FM-USP demonstrou de forma inédita que partículas de microplástico presentes no ar podem ser inaladas por humanos. Os cientistas identificaram e caracterizaram 33 partículas e quatro tipos de fibras de polímeros em 13 de 20 amostras de tecido pulmonar (leia mais em: agencia.fapesp.br/36197/).

O estudo foi feito em colaboração com o Instituto de Química da USP e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). “Conseguimos provar que existe plástico dentro do pulmão. Estamos inalando plástico. Outros grupos já haviam encontrado microplástico no sangue e na placenta. E, na natureza, tem sido observado plástico em aves marinhas, baleias e até nos locais mais profundos do oceano. O plástico está deixando de ser considerado um resíduo e começa a ser visto como um contaminante”, afirma Amato-Lourenço.

Outro ponto que precisa avançar, segundo Mauad, é a criação de índices que indiquem a partir de que nível a inalação de microplástico pode ser danosa à saúde humana.

“O microplástico tem um impacto muito grande na própria COVID-19, como vimos mais recentemente. E nós estamos inalando plástico. É claro que isso traz consequências para a biologia das células pulmonares, pois se trata de um material persistente. Ele não degrada nem na natureza, nem no organismo. Só que a gente não sabe ainda dizer exatamente qual a quantidade inalada é perigosa para a saúde, nem quais os tipos de plástico representam maior risco”, pontua a pesquisadora.

A degradação do plástico e a maneira como ele interage com outros compostos também tornam a análise toxicológica uma equação complexa. “O plástico degrada e vira um polímero secundário, que vai ter um comportamento e uma composição diferentes se está no solo, no ar, na água ou nos organismos. Ainda não sabemos se a quantidade encontrada representa muito ou pouco. Temos tecnologia para quantificar isso, mas ainda não sabemos o real impacto”, afirma Mauad.

O artigo Airborne microplastics and SARS-CoV-2 in total suspended particles in the area surrounding the largest medical centre in Latin America pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749121018819?via%3Dihub.

Já o estudo Atmospheric microplastic fallout in outdoor and indoor environments in São Paulo megacity está disponível no endereço: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0048969722005423?via%3Dihub.

E o artigo Presence of airborne microplastics in human lung tissue pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304389421010888.
 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.