Como aumentar a divulgação da produção científica e das revistas acadêmicas

Os padrões são incorporados em todas as etapas dos processos de criação e disseminação de informação e, portanto, desempenham um papel crucial na comunicação científica.

NISO é a sigla em inglês para Organização Nacional de Padrões de Informação dos Estados Unidos (National Information Standards Organization), responsável por “desenvolver, manter e publicar padrões técnicos relacionados à publicação, aplicações bibliográficas e de bibliotecas”, como JATS, KBART, MARC, e outros.

Em alguns desses casos, a NISO mantém padrões ativos, como o JATS, que o SciELO usa como base para o SciELO Publishing Schema. O uso de padrões ativos permite escalabilidade, sustentabilidade e adaptação dos padrões, garantindo que eles não fiquem obsoletos e/ou desatualizados.

A primeira conferência NISO Plus foi realizada em Baltimore, EUA, de 23 a 25 de fevereiro. O evento reuniu bibliotecários, arquivistas, editores, prestadores de serviços, gerentes de produto, especialistas em metadados e muitos outros.

Como parte do esforço para tornar a conferência mais inclusiva e, graças ao financiamento adicional da Fundação Alfred P Sloan, foi possível ao comitê da NISO Plus oferecer doze bolsas de estudo, divididas em duas categorias: Início de Carreira e Equidade & Diversidade. (Nota: as autoras deste post receberam bolsas na categoria Equidade & Diversidade).

Infraestrutura foi um tema recorrente na conferência, desde a conferência de abertura até as últimas sessões. A conferência inaugural foi proferida pela Dra. Amy Brand, Diretora da MIT Press, que discutiu Acesso Aberto e Ciência Aberta falando sobre “quem é dono da infraestrutura”, o que significa que um periódico em acesso aberto pode estar usando tecnologias proprietárias e, portanto, “fechadas”. O conteúdo aberto pode estar em uma infraestrutura “fechada” e vice-versa.

Nas seções seguintes, resumiremos os principais temas relacionados à discussão sobre padrões contemporâneos.

Interagindo com a NISO

Todd Carpenter, Diretor Executivo da NISO, afirmou que o verdadeiro trabalho “começa na quarta-feira”, após a conferência. Isso soa particularmente verdadeiro para esta sessão, que introduziu os participantes na função social dos padrões de informação no estabelecimento da confiança entre provedores e usuários de conteúdo, e como a NISO se envolve com muitas diferentes partes interessadas para discutir, definir e aperfeiçoar as melhores práticas e resolver desafios na comunidade de informação. A NISO oferece muitas maneiras diferentes de participar e se esforça para garantir que todas as vozes sejam ouvidas. Há muitas opções para contribuir: as organizações podem participar da NISO como membros institucionais, e os indivíduos podem participar de grupos focais, eventoscomitês, pesquisas e também é possível enviar uma solicitação para ser adicionada à sua Newsline.

JATS

SciELO Publishing Schema é baseado na JATS (Journal Article Tag Suite), “um padrão internacional de conjunto de tags XML para artigos de periódicos” que começou a ser implementado pela coleção SciELO Brasil em 2014.

A JATS é desenvolvida pela NISO e, é claro, foi discutida em muitos contextos, desde suas origens, como a DTD da NLM, até seu estado atual e a abordagem que eles estão adotando na migração para a versão 2.0, que não será compatível com versões anteriores, mas que deve abordar as ambiguidades e as questões de acessibilidade da versão 1.x e corrigem “dúvidas técnicas mantidas para garantir compatibilidade retroativa antes de seu desenvolvimento como padrão“. O grupo de trabalho JATS4R (JATS for Reuse) também foi apresentado durante a conferência como sendo “dedicado à otimização da reutilização de conteúdo acadêmico, desenvolvendo recomendações de boas práticas para a marcação de conteúdo em XML JATS”.

O SciELO participa do comitê do JATS e do subgrupo Peer Review Materials da JATS4R.

CrediT

Uma vez que a NISO planeja estabelecer um comitê para continuar os esforços de divulgação e promover o desenvolvimento contínuo da taxonomia, a NISO Plus foi um ótimo local para discutir sobre as implementações e desafios atuais e futuros do CRediT.

Atualmente, muitos publishers estão incentivando o uso do CRediT com uma variedade de abordagens, conforme descrito por Gabe Harp, da MIT PressPublishers como a PLOS e a eLife estão exigindo detalhes da contribuição e requerendo CRediT como formato, enquanto outros, como a MIT Press, implementam uma “abordagem variável”, tornando as declarações de contribuições opcionais e recomendando o uso do CRediT quando os autores listam suas contribuições.

A ORCID está planejando implementar o suporte às funções de colaborador do CRediT para permitir que os usuários adicionem esta informação manualmente e que as organizações adicionem estes dados por meio da API. Como fornecedor de infraestrutura e membro da NISO, a ORCID participa do comitê e apoia a NISO na liderança desta discussão da comunidade. O Crossref também está planejando adicionar suporte para CRediT em seu esquema em breve.

O SciELO começará oficialmente a recomendar o uso do CRediT nos novos Critérios, políticas e procedimentos para admissão e permanência de periódicos científicos na Coleção SciELO Brasil, apesar de alguns periódicos do SciELO já o utilizarem há algum tempo.

Durante os grupos de discussão, o consenso geral em relação à exigência de funções de colaborador (usando ou não o CRediT) é a dificuldade em convencer autores e editores a adotar novas práticas, bem como os provedores de serviços a implementá-las e apoiá-las. Uma solução aparentemente simples para a questão da transparência dos critérios de autoria se torna muito mais complicada ao considerar diferentes contextos, partes interessadas, disciplinas e sistemas. Estes desafios compartilhados apoiam e confirmam a necessidade de uma abordagem de padronização em toda a comunidade que permita:

  • Integrações aprimoradas e melhor suporte para editores e colaboradores
  • Persistência (melhores processos e governança para a taxonomia)
  • Melhorias contínuas (para garantir a evolução do CRediT conforme necessário)

O comitê CRediT da NISO deve ser concluído em julho de 2020. A expansão das funções do CRediT conduzida pela comunidade pode levar a uma análise interessante de dados relacionados a contribuições, como tendências geográficas, de gênero e de disciplina, conforme sugerido por Allison McGonagle-O’Connell, da O’Connel Consulting.

Publicação, dados vinculados e metadados

As sessões dedicadas à publicação de dadosdados vinculados e metadados discutiram as maneiras pelas quais bibliotecas, publishers e sociedades podem ajudar pesquisadores e autores a melhorar a cultura de publicação de dados, do depósito à citação e reuso.

O depósito de dados é apenas a ponta do iceberg; o valor de se ter metadados sólidos foi levantado várias vezes, considerando a importância de poder conectar os conjuntos de dados aos artigos publicados. A diferença no número de conjuntos de dados publicados e citados nos artigos é muito significativa. Shelley Stall, da American Geophysical Union, usa como exemplo um artigo que, quando submetido, estava citando corretamente o conjunto de dados utilizado, mas que, quando publicado, teve seu DOI removido da referência, perdendo a citação para o conjunto de dados.

A discussão destacou a falta de uma cultura sólida de reutilização de dados, com muitas oportunidades perdidas, pois os conjuntos de dados podem ser usados para outros fins além da replicabilidade. A seguir, três etapas que devem ser tomadas para melhorar a publicação, uso e reutilização de conjuntos de dados na comunidade científica:

  1. Educar os pesquisadores sobre o valor da publicação de seus conjuntos de dados, considerando o uso de
    1. Identificadores persistentes, como DOIs e ORCID iDs, para tornar os dados FAIR
    2. Ferramentas como o Repository Selector que permitem que os pesquisadores façam escolhas melhores.
  2. Estimular boas práticas para citação de conjuntos de dados
    1. Como o uso de identificadores (tal qual o conjunto de dados DOI ou o ORCID iD do pesquisador) para ajudar outras pessoas a citar corretamente ao reutilizar dados
  3. Promover uma cultura de reutilização de dados. Iniciativas como a Declaração Conjunta dos princípios de Citação de Dados, a Initiative for oPEN Citations estão trabalhando nesta direção. O SciELO promove o depósito de conjuntos de dados e também desenvolveu as Diretrizes para citação de dados de pesquisa, avançando na primeira e na segunda etapas.

Identificadores persistentes são os “blocos de construção da infraestrutura de pesquisa”, pois atuam como identificadores e conectores. Como mencionou Philipp Schreur, “os dados vinculados têm tudo a ver com identificadores, para as coisas, as relações entre elas e para torná-las legíveis por máquina”.

Consenso e consistência são dois problemas recorrentes em torno de metadados e um dos motivos pelos quais precisamos de padrões. Discutir, concordar e promover bons metadados são um esforço da comunidade e uma responsabilidade compartilhada.

Conclusão

Na pré-conferência, Bohyun Kim introduziu o conceito de Tecno-Utopianismo, a crença de que o avanço da tecnologia pode e nos levará a uma sociedade melhor e ideal. O dogma resultante, “dado-ismo”, implica que “os dados são uma lente transparente e confiável que nos permite filtrar o emocionalismo e a ideologia; estes dados nos ajudarão a fazer coisas notáveis – como prever o futuro”. O surgimento de “pseudo-I.A.” ou dados tendenciosos ilustra a necessidade (e urgência!) de pensar criticamente sobre os dados que produzimos (e usamos) e a tecnologia que implementamos. O engajamento da comunidade é essencial para resolver estas questões.

Dito isto, há muitas maneiras pelas quais a I.A. pode nos ajudar. “No oceano de pesquisa de dados e material, por si só, não é mais suficiente”, portanto, um mecanismo de pesquisa baseado nisso foi sugerido como um meio de fornecer resultados de pesquisa personalizados para cada usuário. A ideia por trás disso é que um pesquisador não terá, necessariamente, as mesmas necessidades que um estudante de graduação, mesmo que estejam procurando materiais sobre o mesmo tópico.

“Abrir não é o suficiente”, disse Amy Brandt, para nos lembrar que, para evitar futuros distópicos, precisamos questionar a propriedade e a diversidade da infraestrutura de pesquisa. O futuro do conhecimento depende da construção de uma infraestrutura de pesquisa aberta e diversificada.

Interoperabilidade é a capacidade dos sistemas de se comunicar e, como tal, um ecossistema de pesquisa aberto e diversificado só pode existir e evoluir sendo interoperável.

O SciELO fornece DOIs a todos os artigos de todos os periódicos (a menos que eles tenham outro provedor) há mais de dez anos e solicita que todos os periódicos coletem e publiquem iDs do ORCID desde 2019. Graças aos padrões, o SciELO pode interoperar com Crossref e ORCID (entre outros), que servem como uma “ponte” para vários outros serviços e são exemplos de infraestruturas abertas sem fins lucrativos. E o modelo SciELO é atualmente usado por 17 países que compõem a Rede SciELO, incorporando “um programa de cooperação internacional para o progresso da pesquisa e sua comunicação aberta, com vistas a um fluxo global inclusivo de informação científica que considera a diversidade de geografias, áreas temáticas, culturas, multilinguismo e a riqueza resultante de assimetrias”.

Idealizada para ser “uma experiência diferente de conferência para a comunidade da informação”, o evento foi caracterizado por participação, colaboração e inclusão. A NISO Plus conseguiu evitar o formato tradicional de conferência “sábio no palco” (“sage on stage”) e foi um foro de discussões abertas e animadas (e nerds!), tanto off-line quanto on-line, através de notas colaborativas, no Twitter.

Para se apropriar e construir um ecossistema aberto e sustentável de pesquisa diversificado, precisamos envolver todas as partes interessadas, reconhecendo a diversidade da informação e da comunidade acadêmica, promovendo a adoção de padrões e investindo no desenvolvimento de infraestrutura aberta. É preciso de toda uma comunidade!

Referências

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FEENEY, G. Proposed schema changes – have your say [online]. Crossref blog, 2019 [viewed 16 April 2020]. Available from: https://www.crossref.org/blog/proposed-schema-changes-have-your-say/

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LAPEYRE, D. Introduction to JATS (Journal Article Tag Suite) [online]. XML.com, 2018 [viewed 16 April 2020]. Available from: https://www.xml.com/articles/2018/10/12/introduction-jats/

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PACKER, A., et al. Why XML? [online]. SciELO in Perspective, 2014 [viewed 16 April 2020]. Available from: https://blog.scielo.org/en/2014/04/04/why-xml/
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Traduzido do original em inglês por Lilian Nassi-Calò.

link original:  https://blog.scielo.org/blog/2020/04/16/o-sabio-nao-esta-no-palco-ou-uma-retrospectiva-da-primeira-conferencia-niso-plus/

Fonte: AGUIA

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